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POR Amanda Fontes

A Escola educa para um mundo que não existe mais!

Colunistas / 08.11.17

7 horas da manhã. Soa o alarme na cabeceira da cama para despertar João de seu sono nada reparador. Ele dormiu às 3h. Afinal, há muita matéria acumulada e o vestibular se aproxima.

O adolescente, sobressaltado, pula da cama e rapidamente veste seu uniforme, engole o café da manhã ainda de pé e dirige-se com pressa à escola.

− Bom dia! — Diz ao porteiro.

Que responde ríspido:

− Você está atrasado. Corra para a “cela” 302 e reze para que o professor o deixe entrar.

João atravessa os estreitos corredores. Olha para um lado e para o outro em busca de sua sala. Por uma pequena janela quadrada, enxerga o professor, que — do alto de seu tablado — é a própria materialização da autoridade institucional.

O aluno pede licença e entra cabisbaixo. Senta-se na última cadeira e torce para que o tempo voe.

Ele é um rapaz esperto, adora games, artes e programação, mas aquela aula é intragável. O conteúdo teórico lhe é repassado de forma integralmente expositiva e centralizada no emissor. Todos os alunos permanecem dispersos e enfileirados, “sem voz”, seguem rigorosamente a hierarquia que lhes é imposta.

Na hora do banho de sol, toca um sinal. Todos descem, comem algo e retornam para suas salas.

Ninguém disse ao João o que ele realmente faz ali — qual o propósito ou o significado de tudo isso.

A pauta é sempre a mesma: passar no vestibular pra se empregar. Mas, de verdade, ele se sente um inútil, um peixe fora d’água, pois não é tem habilidade para decorar “sequer” a fórmula dos hidrocarbonetos aromáticos.

 

Essa é a nossa escola. Qualquer semelhança com a realidade de uma prisão, de um quartel ou de uma fábrica, não é mera coincidência.

A escola, como a concebemos hoje, é filha da Revolução Industrial. Nasceu no século 19, a fim de fornecer mão de obra especializada às fábricas locais e mantém-se impermeável à revolução científica e tecnológica que colocou de ponta cabeça a rotina de nosso dia a dia.

O sistema pedagógico vigente é ultrapassado. Envelheceu e não percebeu.

Logo, na esteira da massificação, o seu objetivo ainda é fornecer empregados que saibam, com maestria, “apertar uma porca”.

Einsten, certa vez, disse que “todos são gênios, mas se você avaliar um peixe por sua capacidade de subir em árvores, ele passará a vida inteira acreditando ser burro”.

É exatamente isso que o modelo educacional impõe. Com a separação das crianças por faixa etária, aplicação de testes padronizados e jornadas exaustivas de aulas, não se consideram a vocação, os talentos e os sonhos de cada jovem.

Na produção em massa, um excesso de conteúdos enlatados e pasteurizados são empurrados cabeça à dentro, sem qualquer estímulo à capacidade crítica.

A criatividade e a inventividade são tolhidas por um loop infinito de repetição.

O sistema educacional atual é genérico, conteudista e despersonalizado enquanto a nova versão de mundo que se aproxima requer um sistema descentralizado, interativo e personalizado, o qual se adapte as necessidades de um mundo complexo, e prepare as crianças para viver e se relacionar na sociedade de rede, pautada na economia do conhecimento.

Em um vídeo recente, Murilo Gun advertiu-me que passamos atualmente não por uma era de mudanças, mas sim por uma mudança de Era.

Trata-se, segundo Walter Longo, da Era Pós-Digital. Contudo, a escola insiste em “dar murro em ponta de faca” e preparar o aluno para um mundo que não existe mais.

Submeter o jovem a este tipo de educação é obrigá-lo a rodar em um sistema operacional moderno, com um software totalmente desatualizado. Afinal, dados apontam que 60% dos jovens ainda estudam para profissões que vão deixar de existir(!!).

E aí eu me pergunto: qual é a utilidade de decorar os elementos da tabela periódica e a estrutura dos hidrocarbonetos aromáticos, quando a internet tornou instantaneamente acessível todas as informações do mundo?

Enquanto entupimos o HD dos nossos jovens de conteúdo acrítico, deixamos de ensiná-los as habilidades absolutamente essenciais para o futuro.

Assim, perde-se em encantamento, engajamento, interesse e, sobretudo, equiparam-se nossos jovens a meros depósitos de informações aptos a serem testados.

Ao parafrasear Martin Luther King, digo: Eu ainda tenho um sonho!

Sonho com a escola do futuro que ensinará meus filhos a serem cidadãos do mundo. Que eles aprendam a enfrentar os desafios de uma nova Era, a resolver problemas e, sobretudo, a ser protagonistas motivados com a própria história.

Chega de intelectualidade abusiva, de discurso autoritário, de linha de montagem. Quero filhos criativos, inventivos, críticos e com habilidades para se conectarem.

Em um mundo sem fronteiras, além da repetição, há outras questões muito mais relevantes e universais para serem solucionadas.

Que os professores — peças fundamentais da nossa história — tenham a liberdade de ser menos expositivos e mais curadores. Que o termo “aluno” não signifique, de fato, o que o mito da etimologia da palavra conduz: ser sem luz.

A educação precisa ser dialética, descentralizada e com a capacidade de transformar cada indivíduo em receptor e emissor de informações. Afinal, hoje, é falacioso falar em “fonte do conhecimento”.

A propósito, para Jorge Paulo Lemann — um dos brasileiros mais bem sucedidos do mundo— a escola ideal precisa de disciplinas como design thinking, oratória, pensamento crítico e negociação.

João, eu entendo você. A culpa não é sua. Por isso, torço para que saibas que não és inútil, burro ou que simplesmente “não deu certo”.

A vida nem sempre é linear e o equívoco é daqueles que insistem em encaixar peças com formatos distintos no mesmo quadrado.

A propósito, Sócrates já apontava que o caminho não está em dar todas as respostas, mas em fazer as perguntas certas e proporcionar ao interlocutor a descoberta de suas próprias verdades.

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Amanda Fontes tem 26 anos, é advogada e graduada em Direito pela Universidade Federal do Maranhão. Curiosa e buscadora, ama desenvolver habilidades, sem caixa para descrição. Tem paixão pelas palavras e por sua capacidade de construir pontes. Afinal, quem não se comunica, se trumbica.

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