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POR Amanda Fontes

Uma vida não basta!

Colunistas / 26.10.17

“Uma criança que lê, será um adulto que pensa”.

Não foi por um acaso que essa frase piscou na minha Timeline. Afinal, quando o papo era educação, minha mãe sempre foi bem rigorosa, eu até a chamava de “sargentão” e batia continência.

Contudo, meu irmão alega ter sido ela bem mais complacente comigo. Diz que no tempo dele, as rédeas teriam sido mais curtas. Eu duvido. Isso só pode ser intriga da oposição.

Aos 10 anos, eu tinha que ler e resumir por escrito ao menos dois livros por mês, sob pena de ter subtraídos alguns dos meus lazeres preferidos.

O meu livre arbítrio limitava-se à escolha dos títulos. Por isso, na época, eu li a coleção do Harry Potter, o Amigo do Rei, O Pequeno Príncipe, O mundo de Sofia e por aí vai…

Outro dia, alguém me perguntou se não tive traumas pela tal imposição. Já que talvez o politicamente correto fosse dar às crianças o direito de escolha (oi?).

Em resposta, disse que isso está longe de ser um trauma em minha vida, pois eu serei eternamente grata a minha mãe, que — à força ou não — ensinou-me os prazeres da leitura.

Além do mais, uma mente que se abre a uma nova ideia nunca volta ao seu tamanho original. Por isso, incentivar esse hábito, sobretudo, entre os mais jovens é a garantia de um futuro melhor.

Obrigada, mãe.

Hoje, tenho um ritual semanal de ir à livraria. Aos sábados ou aos domingos, sempre estou por lá. Os vendedores já me conhecem.

Mal entro e começam a distribuição da cestinha. Acho que já sabem que, em meio a tantos livros, carrego sempre cinco ou seis exemplares comigo. Depois, calmamente, sento-me num sofá quentinho para degustá-los.

Leio a contracapa, a orelha e o prefácio. Em seguida, vou amontoando um por um à minha frente. É quase a torre de Pisa.

Eu amo cheiro de livro, principalmente quando aspirado de olhos fechados. Remete-me à viagem, ao horizonte e à liberdade.

Algumas vezes, saio da loja com dois ou três títulos novos — sim, confesso que sofro daquele mal de comprar mais livros do que posso ler. Outras vezes, não levo nenhum.

Mas o que me impressiona é a grande diversidade de conteúdo produzido. Sempre tem obra nova e a sensação é de que uma vida não será o bastante para sorver tanta informação.

Dados do Google — publicados em 2010 — davam conta de cerca de 130 milhões de títulos catalogados no mundo. Além de 4 bilhões de home pages na internet.

Cheguei à conclusão de que se eu ler dois livros por mês, dos 10 aos 70 anos serão apenas 1440 livros numa vida, o que me faz ter acesso a cerca de 0,0000000000015% das informações publicadas.

O lado bom disso é que a consciência de nossa pequenez põe um freio na arrogância ou na síndrome de sabichona. Na verdade, certo estava Sócrates: só sei que nada sei.

A globalização e o acesso cada vez maior à tecnologia proporcionam um bombardeio de informações, as quais se perdem na nossa memória superficial.

E aqui aproveito para pontuar que o arguto Mário Sérgio Cortella diferencia informação de conhecimento. Segundo ele, a informação é cumulativa e o conhecimento é seletivo. Aquela é esquecível, enquanto este é inesquecível.

O conhecimento seria a apropriação da informação. A capacidade cognitiva de interpretá-la e, enfim, saber o que fazer com ela. No popular, é ligar “lé com cré”.

É fato que a leitura de qualidade alarga o horizonte, nutre a imaginação e apura o raciocínio. Ler ensina a pensar, e pensar liberta.

 

Contudo, num imenso universo de informações e de produção de conhecimento em massa, descobrir o que, de fato, é importante pra mim, certamente, é o que importa.

Aprendi que, como uma vida não basta, eu preciso selecionar, gerir e curar as informações a que me exponho e o conhecimento que produzo. Afinal, é preciso cuidar, com amor e carinho, de tudo aquilo que eu puxo para dentro de mim.

Por isso, em meio a um manancial de conteúdos, a vela que me guiará ao porto é a seletividade.

Logo, eu devo escolher criteriosamente o que ler, ver e ouvir.

Com criticidade, eu posso separar o joio do trigo e selecionar melhor os meus mentores por meio de critérios fincados em valores, princípios e propósitos de vida.

Afinal, segundo Mark Twain: “Os dois dias mais importantes da sua vida são: o dia que você nasce e aquele em que você descobre o porquê”.

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Amanda Fontes tem 26 anos, é advogada e graduada em Direito pela Universidade Federal do Maranhão. Curiosa e buscadora, ama desenvolver habilidades, sem caixa para descrição. Tem paixão pelas palavras e por sua capacidade de construir pontes. Afinal, quem não se comunica, se trumbica.

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