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POR Manoel Veloso

Tempo, Matéria e Alma

Colunistas / 10.12.15

Somos muito apegados à Matéria. Matéria em si. Coisas. Aquilo que for tátil, mensurável, classificável, aferível. Abraçamos, cheiramos, sentimos, reproduzimos, acumulamos. O que interessa é ter. O verbo primordial. Viver tão mais não significa se não estiver necessariamente vinculado aos montes, em prateleiras, caixas, armários, debaixo dos colchões.

Insistimos em ter pessoas, também. Apegados que somos, não queremos deixá-las ir. Não queremos que elas sejam capazes de viver per si. Não podem. São minhas, são meus. Devem seguir aquilo que eu quero. Aquilo que determino que seja correto. Que seja feita a minha vontade, segundo somente ela, para ela, por ela. Enfim, por mim. Eu. Eu. Eu.

Nesse ciclo interminável em que há, necessariamente, um vértice – o meu próprio umbigo -, não nos sentimos (nunca) preparados para as perdas. Temíveis perdas. Sofridas perdas. Sanguinárias, que nos colocam do avesso e deixam as veias pulsantes à mostra, sensíveis, a ponto de explodir. E explodimos. Partimo-nos em milhares e milhares de pedaços. E esperamos ansiosamente para que toda a Matéria nos monte de volta. Mas esquecemos de que a Matéria, por ser matéria, transforma-se. Precisar transformar-se. Tem o próprio ciclo. Nasce, vive, morre. Inevitavelmente, morre. De repente, à contragosto, uma fatalidade, um abraço sem retorno, um adeus não escutado, um mergulho sem volta…vai. E vai embora. Pra longe. Segue seu caminho.

Não aceitamos. Não engolimos. Não compreendemos. Por quê? Porque ficamos sem poder sentir o toque, sem poder perceber o cheiro, sem poder colocar na prateleira, sem poder ver a todo tempo e a toda hora. Sem poder. No mundo tátil, touchscreen, fugaz, feroz, veloz, restou-nos tentar manter um singelo toque. E, quando isso nos é tirado, perdemos o sentido. Perdemos nós mesmos. Sofremos. Acreditamos não ser possível recuperar-se da dor. Como um filho que chora o desmame, esperneamos, gritamos. Mas a Matéria, por ser matéria, não poderá retribuir depois do chamado do Tempo. Findo o tempo, finda-se tudo. A Matéria, filha do Tempo, segue o Pai. E somente ele. A nós, só é dada a graça da convivência com esse magnífico ser. Mas este não é nosso. Nunca foi. Jamais será. Ao chamado de seu Pai, ela vai seguir seu caminho. E nós, egoístas e mesquinhos, apegados à sua companhia, ficaremos à mercê.  E sofreremos, mais uma vez. Sofremos a dor de uma eternidade finda. Somos eternos enquanto duramos. Esse pequeno universo se mantém enquanto nos é permitido viver. Findo o tempo, o Tempo há de transmutar, de levar o que é seu.

O que reconforta (ou deveria reconfortar) a dor do parto são as memórias, o sentimento, a Alma. Esta última, grande guerreira independente, brigou com o seu irmão Tempo. Disse-lhe que não seguiria seu caminho porque quer trilhar o próprio. Quer ir onde bem entender. Quer ser livre. Quer viver a eternidade correndo por aí. Quer ser música, quer ser um cheiro, quer ser o vento que sopra do noroeste, quer ser o assovio em meio ao silêncio, quer ser eco, quer ser um arrepio. E, em sua solidão, descobriu-se eterna – aos chamados do irmão Tempo, permanece em silêncio e sozinha.

Em consequência de sua solidão, desaprendeu a falar. Por isso passa por nós e não a escutamos. Como não convive com Matéria, não podemos senti-la como as coisas e as pessoas. Vive entre nós e pouco percebemos. São raros os que percebem a Alma entre nós – só os mais sensíveis por dentro, aqueles que descobrem no silêncio e no sentimento grandes realizações, verdadeiras acumulações. Mas isso não significa que deixam de conviver pacificamente com a Matéria – ela é linda, é afável, está sempre presente e toca! Mas não toca lá dentro como a Alma – e, por isso, preferem-na. Sabendo que a Matéria pode ir embora à qualquer momento, essas raras pessoas encontram verdadeiro conforto e companhia na Alma.

Por dela viverem, permanecem. Tempo pode chamar Matéria e deixá-los à mercê. Pode tirar-lhes tudo. Mas deles jamais tirará o conforto e a companhia de Alma. Serão eternizados. E poderão ser encontrados sempre – na música, no vento noroeste, no arrepio. Aqueles que apegam-se à Alma, jamais se vão.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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