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POR Manoel Veloso

Última Visualização

Colunistas / 27.08.15

Em tanto tempo de História, nunca falamos tanto enquanto permanecemos em silêncio. Calados, mas com dedos incansáveis, são mensagens, textos, cola de provas, conclames, editais de convocação para uma mesa de bar, pedidos de namoro, discursos de término. Escrevemos vorazmente, mas a língua padece imóvel.

Ávidos pelas mensagens, esquecemos até que estamos acompanhados. Podemos até andar de mãos dadas, mas a conexão da vez – ainda que caia com o sinal da operadora – está no celular. Isso é inquestionável. E essa exigência é tanta que cobramos tempo de resposta. Os dois minutos em frente ao micro-ondas à espera da pipoca pro filme conseguem ser menos torturantes que os segundos entre as mensagens no WhatsApp. Tiro o celular do bolso, checo as notificações. Nada. Coloco de volta no lugar. Mal se acomodou e já repito o ciclo, incansável.

Essa necessidade por respostas, por presença, por atenção e por estar conversando com dezenas de pessoas (no privado ou em grupos) nos deu mecanismos de controle. E ficamos sob custódia, vigiados pelo tic-tac do relógio. Mas temos pavor de cobranças. Cobrar, sim. Ser cobrado, não. Então nos escondemos atrás de qualquer coisa que possa servir. Por exemplo: desativamos a marcação do horário da última vez que estivemos online.

Por que nos escondemos? Por que não assumimos que lemos as mensagens e que, simplesmente, não respondemos no momento da visualização? Já vi amigos publicarem pedidos de desculpas em suas redes sociais por serem desapegados do celular ou por, simplesmente, esquecerem-se de responder. Laços importantes foram questionados porque um par de perguntas foi esquecido. Não foi por indiferença ou antipatia. Existem argumentos – e são bem válidos! Imprevistos, ocupações, trabalhos, aulas, trânsito, “passou batido”. Esse silêncio não pode ser execrado como se fosse a causa primeira do fim de uma relação – seja ela qual for. O que deveria incomodar mais – esse sim! – é o silêncio à mesa, onde, em vez de usarmos a língua (que chega a bater no céu da boca clamando por liberdade), insistimos em usar os dedos na tela do celular.

A verdade é que temos medo. Eu tenho medo. A resposta instantânea pode parecer que você está mais envolvido e, por isso, está mais vulnerável. E, assim, vai ser mais facilmente manipulado. Porque, em nossas cabeças, isso é muito lógico. Sinônimo de amar é, necessariamente, sofrer (com direito à voz tremida de Chitãozinho e Xororó); e só se deixa levar quem é muito fraco. Sábio é aquele que contorna a conversa e parece envolvido, mantendo respostas curtas, sem dar brechas para intimidade (ou uma falsa intimidade). O que vale é a máxima de que “quem entra não vem pra ficar, só quer roubar mais um pouco da nossa paz”. Da minha paz. Mais uma vez, autossabotamos. Deixo sabotar. A coisa mais simples do mundo torna-se um martírio, um jogo de tabuleiro em que os movimentos precisam ser meticulosamente pensados. Ou xeque-mate. Um campo minado, onde qualquer passo em falso pode ativar uma bomba. Mas nem permitimos que isso aconteça, porque destruímos qualquer possibilidade antes mesmo que ela apareça. Estamos ansiosos demais deixar desenrolar.

Seria falacioso dizer que nunca aconteceu e que o medo não tem fundamento. Mergulhei de cabeça em um lago raso e sufoquei. Tentei nadar fundo, mas não havia espaço para mergulhos. E me estrepei. As mensagens intempestivas machucavam, o silêncio atordoava e verifiquei meticulosamente a última vez online. Revivi diálogos. Testei entonações ao longo das conversas. Tudo isso atrás de uma explicação (qualquer que seja ela) para a indiferença. E de tanto reviver esse ciclo, internalizamos (tu e eu) esse modus operandi, tornamos o medo rotineiro e perdemos o gosto pelo envolvimento. Nadar tornou-se perigoso demais. Piscina com ondas já é deveras assustador. Desaprendemos o bê-á-bá; não boiamos, nem afogamos. Agonizamos.

E nessa brincadeira de gato e rato, em que ora nos escondemos, ora ficamos à espreita do movimento descuidado da presa, não sabemos sequer quem, de fato, é caça ou caçador. Fugimos de nós mesmos. Tentamos decepar nossa sombra. Tudo isso por medo de – pasmem! – deixar-se levar. Deixar-se tocar. Deixar-se viver. Ou, então, ser quem leva, quem toca, quem vive.

Hoje eu ativei o last seen. Decidi reaprender a nadar e permitir velejar por esses mares. Ondas são mais atraentes – por fim, entendi: mar calmo nunca fez bom marinheiro. O movimento das águas revira o estômago e arrepia. Deixa à flor da pele e transborda. Decidi deixar a língua passear em vez de comandar os dedos. Decidi mergulhar e, caso encontre logo o fundo, tentarei escavar – há muitas riquezas inexploradas. Decidi fazer as pazes com o tempo: tu podes ser dos deuses o mais lindo, mas jamais me fará refém de tua beleza. Abandonei os prazos; esqueci a contagem dos minutos; desobedeci a ordem dos fatores. A Última Visualização vai estar bem clara, logo abaixo do meu nome. Estarei lá.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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3 respostas para “Última Visualização”

  1. Ameeeeeei o texto!!!!!!!!! Parabéns!!!!!!

  2. Excelente! Estou os que têm a coragem de assumir que não estão (e não querem estar) paranoicamente on line todas as horas, todos os dias, irrestritamente on line! Pobres escravos da comunicação (?) Como dia minha sogra: “gosto é de gente”

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