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POR Rodrigo Carvalho

Manual do Deficiente For Dummies

Outros / 15.05.15

Bom, pra quem não sabe, eu sou deficiente físico. Isso mesmo, tenho Paralisia Cerebral.  Para um leigo, esse nome assusta. A pessoa junta na cabeça as palavras “paralisia + cerebral” e já acha que eu tenho algum tipo de retardo mental ou sofro daqueles piripaques do Chaves:

Contém Sarcasmo #2 - Interna

Se você achava isso, relaxa, entendo perfeitamente.

– Mas, Rodrigo…você nasceu normal?

Não, nasci do espirro de um unicórnio.

Brincadeira. Explicando de uma forma bem geral, tenho mobilidade reduzida das pernas e, por isso, ando de muletas. Quem me conhece pessoalmente sabe que isso não faz muita diferença. Pra mim, é como usar óculos. Alguém que não enxerga direito precisa usar um acessório para amenizar sua deficiência na visão.  Pois é, no meu caso, só muda o acessório.

Mas, infelizmente, nem todo mundo pensa assim. Algumas pessoas ainda parecem desconfortáveis ao caminhar comigo, como se eu fosse uma espécie de Transformer ou um esquiador na neve (só que sem a neve). Ah, também não dá pra andar de mãos dadas com a namorada no shopping. A propósito, as minhas ex-namoradas viviam tropeçando em mim. Mas esses são detalhes irrelevantes. Tive a fase de ficar chateado, mas nunca me senti discriminado ou diminuído por isso. Hoje, tenho a consciência de que todos os preconceitos (nem sempre no sentido pejorativo da palavra) são frutos da falta de informação. Quanto mais você desconhece um determinado assunto, mais chances de parecer um idiota (no sentido pejorativo da palavra) diante dele.

Além disso, algo muito interessante acontece também. O excesso de cuidado para não soar preconceituoso faz com que as pessoas, involuntariamente, sejam mais preconceituosas ainda. O tal do “politicamente correto” transformou o mundo em um lugar de seres hipersensíveis. O gago virou “Portador de Distúrbios da Fala”, o ceguinho agora é “Deficiente Visual”, o cadeirante até outro dia era “Portador de Necessidades Especiais”. Na boa, pra mim, portador de necessidades especiais é alguém que faz cocô radioativo. Bota necessidade especial nisso.
Tudo depende do seu tom e da sua intenção. Antes de despejar seu preconceito ou seu excesso de zelo, recomendo que você se aproxime e converse. De igual pra igual. Tenho absoluta certeza de que será um imenso aprendizado para ambos os lados. Não há a necessidade de ser piegas, caridoso ou super prestativo o tempo todo. A propósito, permitam-me contar uma pequena história a vocês:

Não faz muito tempo, eu estava parado no hall do cinema, esperando a minha namorada voltar do banheiro, quando um rapaz se aproximou cuidadosamente e disse:

– Com licença, você precisa de alguma ajuda?
[Pensei: – Sim, 10 mil reais]

Respondi:
– Não, tá tudo bem, valeu.

Entendo que ele fez isso na melhor das intenções, mas essa situação ilustra bem o quanto ainda existem preconceitos velados e arraigados no subconsciente das pessoas. Eu não estava fazendo nada de especial, nem dava o menor indício que pudesse sugerir algum pedido de ajuda. Eu estava apenas ali parado, respirando, existindo. Mas a muleta, na cabeça de uma minoria, me transforma em um extraterrestre. A propósito, extraterrestre é um ótimo assunto para um próximo texto.

Enfim, contei aqui uma experiência totalmente pessoal, mas esse raciocínio serve pra todo e qualquer tipo de preconceito. Faço parte sim de um grupo marginalizado, mas posso garantir a vocês que não queremos ser tratados de forma especial. Tudo que precisamos é que a sociedade nos ofereça meios para que possamos levar a vida, em todas as suas esferas,  em pé de igualdade com as pessoas sem deficiência. Discordo da nomenclatura “Vaga Especial”, “Banheiro Especial” e coisas similares. “Vaga de Acesso Facilitado” ou “Vaga Acessível” soam ótimo pra mim.

Proponho agora um diálogo aberto, sincero e produtivo. Quais são os seus maiores preconceitos velados? E que tal tirar alguns minutos do seu dia para tentar se livrar de alguns deles?

Termino minha reflexão com uma ótima frase, atribuída ao físico Albert Einstein:

“A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”

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Rodrigo Carvalho é Publicitário, Analista de Social Media e Tradutor.  Nas horas vagas, atua como observador freelancer das excentricidades humanas. Não é fitness,  nunca resolveu um cubo mágico e acredita em E.T.’s. Acha que a sua vida daria um ótimo filme narrado pelo Morgan Freeman.

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Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

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26 respostas para “Manual do Deficiente For Dummies”

  1. Rapaz li seu texto agora, depois de algum tempo me deparei com seus argumentos, também sou deficiente e minha df chama distrofia muscular congenita tenho limitações com escada mas ando bem dirijo enfim levo minha vida, mas cara tudo o que você falou faz muito sentido, tanto quando você citou dos ets kkkk pois aonde moro é uma cidade do interior e eu sempre fui olhado diferente como se fosse de um outro mundo kkkkk mas agora com a divulgação geral midia e tal esta cada vez melhor, mas coisa que pra mim nao me incomoda é a pessoa se dispor a me ajudar mesmo sem eu pedir ou como você disse “estava apena la vivendo” não me incomodo muitas vezes ja fiz alguns amigos por esse “ajuda” oferecida ou levei mo papo com ela numa unica vez.
    Mas é isso ai, não podemos desistir com os preconceitos de poucos, devemos mostrar a eles que somos dignos de respeito.
    mas você está de parabens… não desista que a vida segue em frente…

    • Muito legal o seu relato, Fernando. Aos poucos vamos desistindo dos nossos preconceitos e virando pessoas melhores. Você também está de parabéns. Abraços e volte sempre. A coluna Contém Sarcasmo tem novidades toda sexta 🙂

  2. Ótimo texto, Rodrigo! Cada ser humano tem as suas peculiaridades, mas no final somos todos iguais, todos humanos.

  3. Penso que o texto reivindica um direito essencial ao exercício da cidadania: igualdade. Muito bom!

  4. Muito bom texto rapaz, ainda bem que eu não desisti de ler. E já pode começar a escrever sobre os ETs, eu também acredito! Aliás, nem queria dizer, mas sou um ET de Varginha (kk). Abraço.

  5. A forma como você conduz tudo é admirável. E que humor, ein?!
    Parabéns!

  6. Quanta naturalidade e humor! Adorei o texto, Rodrigo. O mundo precisa de mais pessoas com a mente aberta.

    Obs: “Não é fitness, nunca resolveu um cubo mágico e acredita em ET’s” – conseguiu ser engraçado até o final, hahahha.

  7. Adorei o texto. Deveria anexar a ele o do Spider-Man, outro que acho perfeito. Parabéns.

  8. Como sempre, adoro os teus posts udhsudhus. Mas olha, esse texto está fantástico. apesar de ter sorrido muito, entendo como acontece… Parabéns, sucesso sempre!!

  9. Rodrigo… Ta precisando de alguma coisa?
    Kkkkkkkk
    Belo texto. abraços

  10. KKKKKK!!! Rindo muito aqui! Mas entendo e vejo isso todos os dias, com meu irmão, contigo e com outros…a pequenez do ser humano é a única coisa que sempre cresce!

  11. Bom dia Rodrigo! Não preciso dizer o quanto te admiro. Gostei muito de como você abordou o assunto.Infelizmente, preconceito vai sempre existir. Parabéns!

  12. Rodrigo vc é um cara extraordinário pois conhecer vc foi normal pra mim,o que me chamou atenção não foi sua deficiência, mas sim seu intelecto e como gosto de estar rodeado de pessoas inteligentes fiz questão de ser seu amigo. kkkk Parabéns pelo texto.

  13. texto ótimo sobre o assunto, adorei. te admiro muito amigo, esse exemplo que vc deu de super sensivel ( o moderno ” mimimi” ) eu concordo demais . hj todo mundo ficou chato, ainda bem que o mundo tem exceções lindas como voce.

    tambem acredito em ets

    beijos peka

  14. É isso mesmo Rodrigo pois tenho em casa outro exemplo tem que terminar com esses preconceito disfarçado

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