Foto Colunista

POR Manoel Veloso

Sofrimento alheio não é refresco

Colunistas / 07.11.17

Não é a primeira vez que critico o estado de desumanidade que vivemos e, infelizmente, acredito que esta não será a última vez que o faço (mas torço sempre para que eu esteja enganado). Muito me entristece a falta de empatia que permeia as nossas relações. E isso é tão gritante que fomos capazes de bater palmas e entoar músicas debochadas entre goles alcoólicos enquanto assistíamos ao “Show dos Atrasados” do ENEM 2017.

A atração é o ápice do “Schadenfreude”, palavra alemã que dá nome àquela sensação de prazer que se sente ao ver o sofrimento alheio. Popularmente, é o refresco daquele que aprecia o tempero apimentado em lugares impróprios de outrem. Tão grande é a sede por esse refresco que esse foi o tema mais comentado pelo Twitter no primeiro dia de realização das provas, contabilizado milhares e milhares de tweets na rede social – fora algumas reportagens em jornais e blogs por aí. Os comentários flutuavam entre a avidez por fotos e vídeos e o deboche através de memes. Em meio a tudo isso, muitos ainda publicaram incessantemente sobre o descontentamento com os “adiantados”, que causariam a “queda na produção de memes” e, consequentemente, em divertimento insosso.

Há quem diga que é humor. E que mais vale tratar a derrota com um sorriso no rosto do que com lágrimas. Tanto que em frente a uma universidade particular localizada no bairro Barra Funda, em São Paulo, dezenas de pessoas se juntaram em uma espécie de comemoração. O bater de palmas e goles que falei anteriormente concentraram-se ali, numa espécie de ode ao “Shadenfreude”, com direito a “certificado de atrasado”, comes e bebes. O Camarote dos Atrasados, como foi denominado e divulgado, foi um sucesso. Sucesso baseado em insucesso.

Imobilidade urbana e compromissos profissionais impediram que muitos candidatos chegassem a tempo – como o caso de alguns trabalhadores. E essa é a realidade de muitos brasileiros que veem no vestibular a oportunidade de mudar de vida. Toda sua preparação, ansiedade e planos ficaram do lado de cá das portas dos locais de aplicação. E tudo isso pisoteado e aplaudido por verdadeiros abutres que espreitavam, apenas aguardando o momento para atacar o atraso (fracasso) alheio. Mas houve história diferente nesse domingo fatídico. Enquanto alguns gargalhavam, outros tentaram ajudar. Um motorista de ônibus de São Carlos, interior de São Paulo, mudou o trajeto da linha que dirigia para ajudar candidatos e “salvou” 15 candidatos do atraso.

A (des)umanidade pode até caminhar para o fundo do poço, mas ainda há heróis do cotidiano tentando mudar essa triste rota (literalmente). Espero que possamos aprender com o motorista Geraldo e gargalharmos todos juntos. Ainda há mais um dia de prova para os vestibulandos do ENEM. E, mais uma vez, veremos risos. Mas torço para que sejam risos outros. Risos leves e de vitória. Sem lágrimas, sem sofrimento, nem pimenta em lugar nenhum. Refresco de verdade é felicidade compartilhada. Aprendamos isso de uma vez por todas.

_____________

Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 23, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

_____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK

www.000webhost.com