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POR Manoel Veloso

Temor

Colunistas / 21.10.17

Essa semana lemos sobre o anúncio de uma vaga de trabalho em Fortaleza, no Ceará, para babá. Nesse emprego, a pessoa cuidaria de duas crianças, uma de três anos de idade e de um bebê de três meses. E receberia, como contraprestação pelos serviços, um mil reais. Entretanto, para conseguir a vaga, a pessoa deveria ser magra o suficiente para caber no carro da família, além de ter boa aparência, discrição, educação, não ter problemas familiares ou vícios (explicitamente o vício em celular). Ademais, a jornada de trabalho seria de quinze dias seguidos e consecutivos, seguidos de 15 dias de “folga” (na verdade, de sobreaviso, como os próprios anunciantes discorrem na descrição do trabalho). E, como cereja do bolo, a pessoa que viesse a ocupar a vaga teria a possibilidade de ter registro na Carteira de Trabalho depois de três meses de experiência.

As irregularidades avultam. E doem. Doem como chagas atravessando o peito de quem milita no Direito do Trabalho. Não é necessário citar artigos de lei nem muitas decisões judiciais a ninguém para perceber que, de cara, tem algo de muito errado nessa oportunidade de emprego. Dói não só como militante na área trabalhista, mas como ser humano. A discriminação é evidente, assim como todo o preconceito.

O Juiz Konrad Saraiva Mota, do Tribunal Regional do Trabalho do Ceará, disse em entrevista ao jornal cearense O Povo na edição do dia 19 de outubro que “todas as exigências que considerem uma pessoa fora do padrão, como ter que ser magra para o desempenho da vaga, são consideradas discriminatórias, é completamente ilegal”.

Essa oportunidade de emprego sintetiza o momento em que vivemos no Brasil – e também no mundo. Vivemos o retorno de uma (suposta) ideologia de direita encoberta de dizeres de “autonomia privada e liberdade” com claros contornos fascistas. E que tem conquistado discursos e ganhado adeptos. Contornos fascistas, sim – isso é uma realidade. Afinal, ao estabelecermos espaços próprios para certas características, estamos criando uma divisão com base na ideia de superioridade de atributos. Ao estabelecermos que a vaga de babá só poderá ser ocupada por pessoas de boa aparência e, necessariamente, magras, estamos deixando de lado qualquer um que não se enquadre no padrão. E, assim, segregamos. Criamos uma hierarquia social. E esta é uma das características do movimento fascista de outrora.

O fascismo perseguiu judeus, negros, mulheres, comunidade LGBT, deficientes físicos e todos aqueles que não se encontravam no padrão. Hoje, elencamos características essenciais para uma vaga de babá; encurralamos negros e pobres em favelas – e os matamos; queremos “curar” a homossexualidade; massacramos os trabalhadores retirando-lhes direitos; monetizamos vidas; silenciamos denunciantes; censuramos a arte.

Temo pelos dias que hão de vir. Tudo que disse já aconteceu sob nossos narizes e pouco fizemos. Aliás, pouco temos feito. Em vez disso, digladiamos entre nós mesmos e enfraquecemos, em completo silêncio. Gargantas mudas, deixamos essas ideias passarem e governarem. Torço para que acordemos e possamos combatê-los enquanto ainda há tempo – enquanto nossas gargantas estão mudas pelo silêncio, e não pelas cordas em nosso pescoço.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 23, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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