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POR Manoel Veloso

Não caiam nessa!

Colunistas / 30.12.16

Abandonei toda métrica e possíveis rimas pra vir aqui de peito aberto. Mas peito aberto mesmo. Tenho umas coisas pra falar diretamente, sem qualquer poética. Troquei meus versos pelo discurso direto porque eu to desesperado. Desesperado mesmo. A cada conversa de corredor, cada papo mole ao celular, tweet ou publicação no Facebook meu desespero é maior. A cada ponto eu tenho vontade de gritar pros agentes do discurso “NÃO CAIAM NESSA!”, com todo o fôlego que meus pulmões permitirem.

Não sei se vocês já perceberam essa onda de negatividade e de angústia que ronda esse fim de ano. Que 2016 não foi um ano fácil todos sabemos, mas até que ponto esse embrolho desses últimos meses conseguiu macular todos os momentos bons? Parece que nesses últimos momentos (talvez anos), mais que antes, estamos convencidos de que não fazemos nada de bom; que o saudosismo é saudável e única válvula de escape possível dessa realidade triste; que estamos fadados ao fracasso; que o subemprego é o único que existe; que não adianta o esforço; que sair da cama é, a cada dia, mais difícil.

Recuso o academicismo agora. Não adianta citar Bauman e suas realidades líquidas. Não adianta copiar os discursos dos psicólogos. Não me vale repetir a cabalística. Basta abrir os olhos; olhar o espelho; reparar no que andamos escrevendo; prestar atenção em nossos discursos; massagear as olheiras. Parece que disputamos a miséria: “eu estou pior que você” ou “ninguém está mais no fundo do poço que eu”. Não quero isso para mim. Eu recuso disputar um espaço no fundo do poço. Eu quero lutar pelo lugar ao Sol.

Nesse meu desespero e angústia por estar sufocado por essa onda de negatividade, convido-os a refletir sobre o que aconteceu de bom esse ano. Difícil, eu sei. Depois de tanto tempo de olho nas coisas ruins, parece que perdemos a capacidade de esbarrar nos melhores momentos e abrir um grande sorriso diante deles. Momentos atrás eu estava lavando uma louça acumulada. Resmunguei tudo o que pude e decidi colocar uma música. O botão de aleatoriedade da biblioteca de músicas, de primeira, colocou uma música que tocou infinitas vezes durante o começo desse ano. De início pensei algo do tipo “de novo?” e resmunguei mais um pouco. Mas, logo em seguida, eu fui inundado com lembranças maravilhosas. Segundos depois lá estava eu, sorrindo e sacolejando louças brilhantes. Que sensação fantástica! E as memórias se seguiram e seguiram e seguiram. E eu fui percebendo o quão 2016 foi BOM pra mim.

Abandonei toda métrica e possíveis rimas pra vir aqui de peito aberto convidar todos a fazer uma reflexão. A uma corrente do bem, tal qual o filme. Quando perguntarem-nos sobre 2016, faremos uma lista mental das coisas ruins, mas, para cada uma da lista, elenquemos as coisas boas. E compartilharemos estas últimas. Em meio a toda angústia e negatividade, faremos brotar as boas memórias, os sorrisos e a esperança de vivenciar outros momentos como esses. Aqui vai minha lista, então:

– Teve um dia que eu encontrei uma padaria muito fofa e cheia de gostosuras muito próxima a minha casa que só encontrei porque decidi ir para casa por um caminho novo – e, agora, sempre como uma rabanada por lá.

– Em maio eu presenciei o luar mais bonito da minha vida no meio do Saara. Nunca tinha visto uma lua tão grande e brilhante como aquela. O céu infinitamente estrelado, as dunas parecendo um mar de chocolate…e um silêncio tão profundo e aconchegante. Sempre vão faltar palavras pra expressar aquele momento.

– Fiz a prova oral mais difícil da minha vida (até então) e eu recebi, ao final, um parabéns do professor e um convite a continuar a vida acadêmica. Sempre que lembro desse momento reacende aqui dentro a vontade de continuar no Direito e concluir os estudos de Coimbra. É uma das memórias que me faz perceber que o caminho, até hoje, está valendo à pena.

– Descobri minha cidadania baiana da melhor maneira possível. Convivi com pessoas maravilhosas por um ano, que dividiram casa, viagens, estudos, um intercâmbio. Eternamente grato por essas amizades (tô chorando aqui escrevendo essa parte do texto).

– Aprendi a falar português com sotaque lusitano – e isso me rendeu piadas sensacionais e umas conversas mais engraçadas ainda.

– Vivi um intercâmbio com uma intensidade que não tem palavra suficiente para descrever. Saudade? Muita. Mas com a consciência que passou.

– Comecei a apreciar vinho e identificar os aromas. Há uns anos eu tentei e eu só conseguia dizer que tinha gosto de uva. Hoje já dá pra dizer o que é cítrico, madeirado…

– Consegui fazer 9 matérias em um período na faculdade. Foi difícil demais, mas eu dei conta. Eu consegui.

– Fiquei mais próximo dos meus irmãos. Descobri um melhor amigo dentro de casa.

– Comecei a fazer Zumba e descobri um gosto pela dança (mais do que só curtir baladinha e voltar todo suado). Acho que eu deveria investir mais nisso. Fica como plano para 2017 insistir no meu lado “Carlinhos de Jesus”.

– Meu banco de receitas aumentou. Consigo cozinhar coisas diferentes além da infinitude de molhos para macarrão e estrogonofe.

Comecei a listar e percebi que tem tantas outras memórias que esse texto vai ser insuficiente – e meu espaço online não suportaria tantos caracteres. As duas primeiras foram as mais difíceis de escrever. Ao final eu me forcei a parar por conta do limite de caracteres. Convido-os a fazer o mesmo e impedir o avanço de toda essa negatividade e tristeza. Não caiam nessa.

Aprendamos a lidar com os dias ruins. Eles vão passar. E ainda mais: aprendamos a valorizar os dias bons. Eles acontecem com uma frequência maior do que somos capazes de perceber. Sejamos mais sensíveis a eles em 2017. E que os sorrisos continuem sendo mais fortes que as lágrimas.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 22, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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