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POR Vitoria Colvara

Aqui, tudo o que se planta, nasce

Colunistas / 12.12.16

Sabe aquele velho ditado de que a gente só dá valor quando perde e coisa e tal? Pois é, ele se aplica aos relacionamentos, mas também ao meio ambiente. Por incrível que pareça, são justamente os países megadiversos, com maior biodiversidade e maior reserva de mata nativa, que tem uma fiscalização praticamente ineficaz e acabam cedendo para os interesses econômicos das grandes potências mundiais (sic). Em meio a um colapso geral e diante de previsões climáticas catastróficas, estamos negociando financeiramente todos os nossos recursos naturais.

A verdade é que sofremos pressões de todos os lados e, principalmente, do hemisfério norte, desenvolvido, evoluído, ~pica das galáxias~, bonzão, ultra legal, ultra alfabetizado, bláblá. Pouco ou nada se fala sobre a história da América Latina, sobre a maneira bruta e cruel como fomos colonizados. Pouco ou nada se fala sobre os índios australianos que foram obrigados a falar inglês. Não, meus amigos, não estou sugerindo que entremos numa máquina do tempo e mudemos o curso da história, mas que pelo menos tenhamos respeito pelos nossos antepassados e valorizemos os nossos vizinhos antes de sair por aí vestindo uma camisetinha da GAP e comendo Mc Donalds.

No contexto atual, na condição de países em desenvolvimento, nós, brasileiros e latino americanos, temos servido de quintal do mundo: uma grande e barata fazenda de exploração de mão de obra e matéria prima.  Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai produzem, juntos, 58% de toda a soja que é consumida no mundo. Para quem não sabe, a monocultura da soja, além de acabar com o solo e com a biodiversidade, apresenta lucros meramente financeiros aos seus grandes produtores, entrando no ciclo daquele sucesso dançante dos anos 2000: “o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre, e o motivo todo mundo já conhece é que o de cima sobe e o debaixo desce”. Os pequenos produtores rurais que antes mantinham uma agricultura de subsistência, plantando o que comiam e trocando com seus vizinhos, estão sendo cada vez mais estimulados a aderir à monocultura. E com isso, todos nós saímos perdendo.

Brota do nosso solo a mais calorosa primavera. Desde os tempos da colonização portuguesa, algo pontuado em todos os pergaminhos era a imensa fertilidade do nosso solo: “Aqui, tudo o que se planta, nasce”, somos agraciados climáticos. Contamos com uma biodiversidade de deixar os gringos boquiabertos. Por que nos render a uma lógica mercadológica que simplesmente não faz sentido algum? Por que deixar de produzir alimentos para seres humanos para produzir grãos que servirão de ração para criação de gado para exportação? Sinceramente falando, enquanto o Brasil estiver na 86ª posição no ranking mundial de IDH, pouco me importa termos a 9º maior PIB do mundo.

Enquanto não entendermos que desenvolvimento e sustentabilidade não podem caminhar de maneira separada, aceitaremos nossa externa posição de subdesenvolvimento como se o problema da fome, da desnutrição e da mortalidade infantil não tivesse total relação com os problemas ambientais. Somos acometidos com malária, dengue, leishmaniose e zyca… doenças consideradas pelos especialistas como negligenciadas. Ou seja, basta saneamento básico e tchan, um milagre acontece.

E aí você se pergunta, “ta, mas e daí? O que eu posso fazer pra mudar isso? ” Pode fazer muitas coisas, de acordo com seu estilo de vida, com seu estudo e/ou com seu trabalho. Se você curte viajar pelo mundo, pode sair por aí explorando nossos países vizinhos, conhecendo culturas tradicionais, valorizando a arte e a vida. Se trabalha com comércio pode incentivar produtores locais, pequenos artesãos, pequenos estilistas. Se seu rolê é no ramo jurídico pode se empenhar a estudar direito comparado de países latinos antes de fazer um hard case sobre o Tribunal Alemão. A galera que já trampa com meio ambiente pode cada vez mais conversar com amigos e familiares sobre os conceitos de agrofloresta, sobra a importância da preservação dos parques, sobre a riqueza de nossas terras.

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Somos o berço de Neruda, Elena Garro, Ferreira Goulart e Galeano. Nossas Cecílas encantam a todos ao lado das nossas Clarices e Marias.  Somos o pulmão do mundo, o oxigênio, o coração, toda a água doce e salgada também. Somos as florestas nativas, as onças pintadas, os cangurus e as araras azuis. Nossos filmes encantam, nossa música apaixona e o gingado latino é incomparável. Vamos valorizar todos os países do hemisfério sul em vez de meramente nos adequar a um estereótipo criado para nos manter numa busca constante por um crescimento desenfreado que nunca vai nos recompensar.

“Inventamos uma montanha de consumos supérfluos. Compra-se e descarta-se. Mas o que se gasta é o tempo de vida. Quando compro algo, ou você compra, não pagamos com dinheiro, pagamos com o tempo de vida que tivemos que gastar para ter aquele dinheiro. Tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade. ” José Mujica

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Vitoria Colvara tem 25 anos muito bem vividos. Apaixonada por viagens, crianças e livros. Advogada, professora de espanhol, kitesurfista e escaladora, não necessariamente nessa ordem. Ambientalista de corpo, alma e coração.

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