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POR Manoel Veloso

Os justos não dormem

Colunistas / 16.11.16

Viro no travesseiro
Nesse chão duro.
Remexo mais um pouco,
Mas o sono não vem.
Ele nunca vem.
O zumbido permanece na mente.
Mente essa que grita em letras garrafais
Palavras de ordem
Ontem, hoje e sempre.
Nunca antes na história desse país,
Companheiras e companheiros,
Ouvimos tanto uma palavra.
Pequena,
Mas robusta.
Daquelas bem pesadas,
Que escutamos com pesar
Socos surdos nos ouvidos sofridos,
Um punhado de sal nas feridas abertas
Por incessantes cortes.
Cortes.

Mais dentes na boca do leão.
Mais água no feijão.
De remendo em remendo
A colcha vai ficando curta.
Mal consegue cobrir a cabeça ou os pés.
Mas não é o que eles dizem.
É o que eles querem nos fazer engolir.
Mas já não engulo nada.
Nada mais passa nessa garganta seca,
Ferida, puída,
Sedenta por um pouco de justiça,
Ou por um prato de comida.
Não aguento mais encher a barriga com farinha,
E misturar com essa água barrenta,
Na esperança de que
Com o inchaço,
A fome passe,
O incômodo vá embora,
E eu consiga dormir profundo.

O sono dos justos.
Dos justos?
Os justos não dormem.
Os justos não dormem.
Os justos estão aqui, agora, acordados,
Ou em qualquer outro lugar,
Escrevendo, gritando, cantando, ocupando.
Qualquer coisa na esperança de que, enfim,
Suas mentes se aquietem,
O prato satisfaça,
A lâmina que tanto corta, fique cega.

E que, de ponto em PEC,
De PEC em ponto,
Essa colcha de retalhos
Realmente cubra tudo que tem que cobrir.
Que cubra não só cabeça, corpo, pés,
Mas me cubra de dignidade.
Que me permita dormir,
Que me permita estudar,
Que da minha renda não tire mais do que já tira,
Que feche os cortes e feridas.

Não daqui a quatro, cinco,
Dez ou vinte anos,
Mas ontem, hoje e sempre.
Os justos?
Os justos não dormem.
Os juntos,
Companheiras e companheiros,
Permanecerão acordados
Enquanto for necessário
Para que, de ponto em PEC,
De PEC em ponto,
Virar no travesseiro,
Mesmo no chão duro,
Seja capaz de devolver o sono mais profundo
Para todos nós.
Ao menos uma vez.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 22, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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