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POR Bruno Pereira

A primeira trombeta do Apocalipse

Colunistas / 07.11.16

Nada nunca foi muito fácil na vida. Uma existência inteira numa guerra interminável para sobreviver. A velha história de matar um leão por dia. Por vezes quase morremos. Saímos dessa luta arranhados, sangrando, cansados, mutilados, mas, ainda que desfalecendo, vivos. Foi assim com meus avós. Foi assim com meus pais. É assim comigo e com você. Hoje, mais consciente do que em outrora, a juventude luta a cada dia por conquistas e por direitos – muitas vezes direitos apenas de ser como se é. Muitas vezes se paga um preço alto pelos anos a fio em que a educação foi sucateada, em que o pensamento foi bloqueado, em que a censura e a repressão dominavam, em que o medo prevalecia. Ainda vivemos num passado assombrado e ainda circula em nós essa (des)cultura de voltar-se com flores àqueles que nos obrigam a planta-las. Por vezes, raramente, temos oportunidades concretas de mudanças. Mas o desserviço, a ignorância – em seu primeiro sentido, e até mesmo a falta de empatia nos faz ter dificuldade para enxergar o que é novo.

A história poderia começar a contar um novo percurso, à esquerda, diferente do caminho por anos trilhado e talvez mal sucedido. Mas não fomos ensinados que pobres, negros, mulheres, a comunidade LGBT+, os que vestem brancos, os singulares, os diversos que fazem a diversidade, o povo do povo, têm espaço, voz e visibilidade. Não é culpa nossa, não. É que não fomos ensinados mesmo. E também não querem que aqueles poucos que têm o conhecimento ensinem aos demais. É porque se você ensina o que é verdadeiramente amor, respeito e afeto, você não aceita mais o ódio. E eles, os de terno, os que gritam que é “pela família, pelo Brasil e por Deus”, vivem do ódio.

Alguns lugares desse imenso país perdeu um pouquinho da sua beleza porque, mais uma vez, o que reinará será a repressão, a violência no discurso, o ódio na ação, será o uso da palavra de deus em vão, como manobra e controle. Deus com letra minúscula, porque Ele, com maiúscula, não aceita participar desta peça em que é apontado como protagonista, mas só faz parte da figuração. É porque enquanto se inventar Deus, e Este for pura quimera, Ele, de fato, não existirá.

A tristeza, o desânimo, talvez frustração e desesperança que me atingem agora não é só porque os candidatos que se aproximam do que é mais humano perderam a eleição em alguns municípios; é porque o ano de 2016 foi de retrocesso na política, em todos os sentidos, e, portanto, retrocesso para nós, pequenas grandes pessoas. Sempre almejando o futuro, rumamos ao passado por pura falta de orientação. Nada muito novo: lá, a minoria era silenciada. Aqui, teremos mais um período de mudez forçada.

A sorte é que aprendemos a gritar, a gritar bastante, a gritar muito, num só coro – e core. Aprendemos a lutar sem material bélico e brutalidade, mas com palavras, sentimentos, ideias, ações, educação e sobretudo e mais que tudo amor. Que nos próximos anos aqueles que são marginalizados aprendam mais e mais o sentido de união, para enfrentar as perdas diárias da vida com mais força e resiliência. Li há pouco que “nossos sonhos não cabem nas urnas”. E nem em nós mesmos. E só por isso é que devemos continuar neste caminho que julgamos certo, que é o caminho de amar e ter empatia. Por hoje, como nos ensinou Darcy Ribeiro, digo que “eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

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Bruno Pereira é carioca; 26 anos; virgem com ascendente em câncer e lua em libra; assino Bruno P.; beletrista pela UFRJ; pós-graduando em Literatura; professor; ator amador no palco da vida; modelo; penso bastante, falo às vezes, escrevo sempre: escrevedor, menos escritor.

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