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POR Bruno Pereira

Precisamos falar sobre ‘Outubro rosa’

Colunistas / 13.10.16

Para ser lido ao som de “Love by grace”,
de Lara Fabian

Anualmente, no mês de outubro, acontece uma das maiores campanhas mundiais contra uma doença que mata em silêncio: o câncer. Mais propriamente o câncer de mama, que atinge majoritariamente as mulheres. A campanha recebe o nome de Outubro Rosa e busca estimular a participação da população e entidades para a luta, conscientização e prevenção do câncer de mama. Parece estranho para você um homem estar falando sobre câncer de mama. No entanto, é importante ressaltar que homens também podem ser acometidos por essa doença. Mas não são dos homens que quero falar. Quero falar de uma mulher: minha mãe.

No final de 2012, mamãe descobriu que estava com câncer. A partir de então, tudo ficou mais duro e mais real. Coincidentemente, se é que coincidências de fato existem, mamãe descobriu o câncer na mama esquerda aos 40 anos, mesma idade em que minha avó materna descobriu seu câncer também na mama esquerda. Minha avó não estava mais aqui, morrera por metástase anos antes; meu avô partira quando eu ainda era moleque. Mamãe só tinha a mim e a minha irmã. Por falar na minha irmã, ela foi extremamente forte durante todo esse tempo. Lutava contra ela mesma todos os dias e dedicava horas a fio a minha mãe e aos cuidados que ela precisava. Eu também fui bem forte, mesmo não sabendo lidar com tudo aquilo, principalmente quando mamãe tinha reações fortes à quimioterapia. Eu nunca consegui fazer parte da área médica e até para tirar sangue, para fazer exames de rotina, eu me tremia inteirinho.

Muitas vezes apenas observava os cuidados de minha irmã a minha mãe. Acho que a única coisa que soube fazer bem foi rezar. Nunca acreditei tanto em Deus, porque nunca tive tanto medo de perder alguém quanto tive de perder minha mãe quando entrou na sala de cirurgia para retirar um quadrante da mama. Minha irmã e eu passamos uma manhã angustiante interminável até que recebemos a notícia que estava tudo bem. Algumas horas depois, fomos liberados para entrar no quarto para ver mamãe. Ela dormia. Mas certamente um anjo sussurrou ao seu ouvido e, quando nos aproximamos da cama, ela acordou. Ainda sob efeito da anestesia, ela nos olhou, sorriu e só conseguiu dizer: “eu voltei”. Logo voltou a dormir. Não chegou a me ver a chorar pela sua volta.

A recuperação da cirurgia foi fácil, visto o que viria pela frente. Tirando certa limitação, como não poder levantar o braço, e, claro, certa dor, mamãe passou fácil por essa etapa. O pior foi depois, com os resultados da quimioterapia. Aconteceu tudo aquilo que sabemos: muitas dores, vômito, perda de apetite e peso, queda das unhas e dos cabelos. E coube a mim este momento. Meu telefone tocou cedo e era mamãe dizendo que os cabelos tinham começado a cair. Dizia com a voz firme ao telefone: “venha aqui à noite e traz sua máquina para você raspar minha cabeça”. Impossível não vir à mente a cena da novela “Laços de Família” e a música “Love by grace”, de Lara Fabian. “Tudo bem, mãe, eu vou e levo”. Saberia que não seria fácil. Chamei meu namorado na época para me ajudar. Prontamente ele me atendeu. À noite estávamos lá, ele, eu, mamãe, minha irmã e a máquina. Ele pegou a tesoura e começou a aparar os cabelos de minha mãe. Nunca o vi tremer tanto. Ele olhava para mim como se buscasse forças. E era o que eu justamente pedia a ele emprestado. Depois de aparado, passei a máquina na cabeça de mamãe. Ela não me viu chorar, já que estava olhando para baixo. “Que bom”, eu pensei. Quando terminamos, ela se levantou, alta e altiva, se olhou no espelho grande da sala, se analisou, algum tempo passou, um minuto, dois… e disse: “eu tô linda”.

Certamente mamãe chorara depois escondido de todos nós, com vergonha, com medo, sem nenhuma autoestima. Mas depois se descobriu imensamente mais forte, apesar de todas as quedas, de dores intermináveis, de meses intensos de tratamentos e anos de efeitos colaterais. Até hoje mamãe não consegue mais comer o chocolate que tanto amava. Mas o câncer, esse já se foi. Algumas coisas marcam profundamente na nossa alma. O câncer de mama de minha mãe marcou a minha, a dela e da minha irmã. Nunca vou esquecer minha mãe careca, sem lenço na cabeça para esconder sua doença, na minha formatura, gritando na hora que fui receber meu canudo. Eu me formara, mãezinha, mas a senhora vencia uma guerra.

Anos depois do tratamento, minha mãe se encontra muito bem, obrigado. Tudo novo, até os cabelos, as vontades, os gostos, o olhar para a vida. E isso também me fez enxergar a vida de outra maneira. Contei tudo isso para dizer, conforme aprendi com um certo velhinho preto, que “não há hoje não haverá jamais pedra grande que não se possa passar por cima”. E conto também para que você, mulher, possa sempre estar atenta ao seu corpo. Se toque, se conheça, se cuide e ajude outras mulheres. Aos homens, apoie e cuide sempre das mulheres que estão ao seu lado, porque isso é verdadeiramente amar. Que possamos desfrutar cada vez mais dos pequenos detalhes da vida e que mostremos nosso amor nas ações diárias.

Escrever também é uma forma de amar…

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Bruno Pereira é carioca; 26 anos; virgem com ascendente em câncer e lua em libra; assino Bruno P.; beletrista pela UFRJ; pós-graduando em Literatura; professor; ator amador no palco da vida; modelo; penso bastante, falo às vezes, escrevo sempre: escrevedor, menos escritor.

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