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POR Vitória Colvara

Sustente

Colunistas / 07.10.16

Desde que passei a morar em Brasília, eis uma palavra que escuto constantemente. Ela se aplica a quase tudo e pode ser dita nas mais diversas situações. Desde um fora que você leva do crush até uma semana punk de muito trabalho ou uma longa caminhada sob o sol quente numa trilha de tirar o couro. Mas o que significa sustentar?

Segundo o dicionário trata-se de um verbo transitivo direto e pronominal. Alguém se lembra dessas aulinhas de português? Pois bem, transitivos são os verbos que precisam de um complemento para fazer sentido. Ainda de acordo com as regras gramaticais, para cair – verbo intransitivo – nós não precisamos de ajuda, por outro lado, para evitar a queda, manter o equilíbrio e/ou apoiar-se, faz-se necessário sustentar-se em algo ou em alguém.

Então, se sustentável é um adjetivo que significa aquilo que pode ser sustentado, como podemos definir a sustentabilidade? Como levantar essa bandeira e lutar para que vivamos em uma sociedade mais equilibrada e resistente? Por mais subjetivo que esse conceito possa parecer, não é tão difícil assim chegar a sua essência. Pergunte a uma criança, observe o comportamento dos animais. Eles entendem muito melhor sobre ciclos da natureza do que nós, chatos e céticos enquadrados no sistema que criamos e tentamos fugir em cada feriado, em cada fim de semana.

Quando desconsideramos o que é básico e essencial, chegamos ao cúmulo de construir ciclovias que não aguentam uma ressaca do mar, hidrelétricas que causam danos socioambientais irremediáveis e não produzem tanta energia quanto previsto, barragens que não barram os rejeitos, aterros sanitários que não suportam a quantidade de lixo, produtos feitos para não durar, plantas que enfeitam sem desabrochar, carros para cinco pessoas ocupados por apenas uma, ônibus para trinta e seis ocupados por cinquenta. Tudo em prol da tão famigerada economia. Lembremos que até o dinheiro, para existir, depende da natureza.

Não é necessário nenhum pós-doutorado em Harvard para compreender que o nosso modo de produção passa longe da sustentabilidade e que, se no período da revolução industrial tratava-se de algo inteligente e inovador, hoje, com 7 bilhões de pessoas habitando o mesmo planeta – das quais um terço não possui acesso à água potável, mais de 800 milhões passam fome enquanto os 67 mais ricos possuem o dinheiro equivalente a renda de 3,5 bilhões dos mais pobres – tornou-se um modelo completamente inviável e excludente.

Não existe uma formula mágica para a solução de todos os problemas do mundo, mas sabemos como economizar água, como despoluir rios, como reciclar o lixo. Só falta vontade política para fazer. Gosto da ideia de governança ambiental global e da possibilidade de uma espécie de código do meio ambiente, mas tenho convicção (e provas) de que a mudança deve começar dentro de cada um de nós. É um desperdício enxergar isso de maneira romântica. Um desperdício deixar a educação ambiental de lado em detrimento de assuntos “mais importantes e mais urgentes”. E se tem uma coisa que não podemos mais fazer é desperdiçar.

Eu sempre digo e repito que desde que comecei a me debruçar sobre o direito ambiental, já tivemos muitos avanços por parte da sociedade que tem se tornado mais consciente e mais exigente.  Avanços que infelizmente não tem sido refletido na política ambiental brasileira que a cada ano nos presenteia com um novo retrocesso ou uma tragédia. Mas como diria minha avó, a esperança é última que morre e a crise política, dentre outras coisas, vai servir para que tenhamos uma reciclagem nesse cenário.

Se eu e você tivermos atitudes sustentáveis no dia a dia, no ambiente familiar, profissional e entre os amigos, já teremos uma grande rede de influências. Se eu e você utilizarmos o poder das redes sociais para divulgar informações sobre o meio ambiente, sobre a importância da preservação, sobre o quanto é legal ter uma horta em casa ou ter a sua própria composteira, ou sobre a crise hídrica que estamos enfrentando nesse momento, já estaremos contribuindo para um mundo melhor. Então que tal começar agora mesmo? Precisamos exigir dos produtores, dos legisladores, dos governantes. Mas em primeiro lugar, precisamos exigir de nós mesmos. Precisamos ocupar os lugares públicos, os cargos políticos, as universidades. Sustentar é resistir.

“Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e engajadas possa mudar o mundo. De fato, sempre foi assim que o mundo mudou. ” Margaret Mead

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Vitoria Colvara tem 24 anos muito bem vividos. Apaixonada por viagens, crianças e livros. Advogada, professora de espanhol e kitesurfista, não necessariamente nessa ordem. Ambientalista de corpo, alma e coração.

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