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POR Isabel Fonseca

O que fica

Colunistas / 06.10.16

A morte é inexorável. O almoço de amanhã pode não chegar. A festa no fim de semana também. A próxima temporada do seriado? O carnaval no Rio? O banho que você quer tomar daqui a 5 minutos? Sinto muito, não são certezas. Só ela, a intransigente. A mal educada que não pede licença e chega arrastando quem bem entender para sei lá onde.

Mas a gente tem muito que aprender com ela. Com a sua onipresença. Se somos intolerantes uns com os outros, ela é intolerante com todos nós. Se nossas convicções nos separam, ela chega como um laço invisível e poderoso nos unindo. Dona morte arromba a porta como um furacão. No pescoço, traz pendurado um letreiro de LED bem luminoso:

“TARDE DEMAIS, MEU BEM”

E agora? Você se foi. O lado de lá é incerto, mas o mundo vai seguir rodopiando. O que foi que sobrou? Quem que vai dar o testemunho de que você passou mesmo por aqui? A sua presença vai resistir na memória de quem? Quem conseguiu te decifrar? Quem transpassou seus muros e vice versa? O número de gentilezas superou o de brutalidades? O que você deixou por aqui e não vai perecer? Ou melhor, vai sucumbir sim, mas com a vida e memória de outros seres humanos?

Veja bem, a questão não é quantitativa. Não precisa ser nenhum salvador da pátria. Não precisa conquistar metade do mundo. Não se sinta mal se você vai morrer sem se tornar uma figura pública. Se não decretarão três semanas de luto. Se você não conquistou uma fortuna. Feitos históricos não são necessários. O buraco é mais em baixo. E mais simples. Talvez você nem vá sair da sua zona de conforto. Mas não dá para ganhar outro planeta se não conquistamos quem dá sentido a esse.

Preocupe-se com o ódio gratuito ao outro. Com o egoísmo exacerbado. Com as ofensas. Com a mágoa que se cultiva. Com a liberdade que se priva e é privado. Com o que não foi dito. Com todas as coisas boas que poderiam ter sido feitas para melhorar a vida de quem te ama. Ou o dia de um desconhecido na rua que te despertou sentimentos bons.  Com as brigas insistentes. Com os julgamentos feitos sobre a carcaça dos outros. Com a superioridade infundada. Com tratar gente como coisa. Com tratar coisa como gente. Com não saber ouvir. Não saber amar. Ser um poço de preconceitos e, principalmente, com essa vontade de anular a existência da outra pessoa porque ela difere da sua.

Perceba o que você emite. Os efeitos sobre a vida de outras pessoas. Transborde gentilezas e empatia. Viver deixar de ser um peso quando nos percebemos exímios colaboradores para a felicidade de alguém.

A vida já impõe situações em demasia onde não se pode escolher. Nascemos sabe lá quando, em que família ou circunstâncias. Ter consciência de que se pode ser melhor é um privilégio. Exercê-lo é obrigação. É como um vírus. Vai se espalhar e refletir nas atitudes de quem foi alvo do apreço. Assim como a ignorância destrói o dia de alguém, a simpatia melhora. O bem-querer transforma. E é isso que fica. As nossas relações. O que você foi para quem te presenciou existindo. Ao partir desse mundo louco, não custa nada deixar nossa passagem carimbada no lado feliz do cérebro de quem fica.

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Isabel Alice, 20 anos. Não sabe se definir, não sabe o que quer da vida, mas tem a petulância de dizer que você não vai encontrar um ser humano mais distraído, ansioso e lunático que ela.

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