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POR Vitoria Colvara

Revolucionar como uma criança

Colunistas / 22.09.16

Você já parou para pensar em como vai ser sua vida daqui a nove anos? Nove meses? Nove semanas, dias, horas, segundos? Eu não estou falando apenas do seu planejamento financeiro, nem da sua almejada carreira de sucesso. Também não quero saber o que os outros esperam de você, ou o que o seu diploma espera de você, ou se você espera por um diploma.

Tente fazer um exercício de regressão, esqueça tudo o que te ensinaram a querer, o que te ensinaram a gostar. Esqueça o que te disseram que era bom ou ruim, certo ou errado. Por um instante, volte a ter a inocência de uma criança que ao ser perguntada sobre o que quer ser quando crescer, responde de maneira encantadora e criativa.

Eu tenho certeza que nenhuma criança imagina que a vida adulta seja ficar sentada atrás de um computador em uma repartição pública ou empresa, trabalhando 6 horas por dias, enfrentando filas enormes de self-service para almoçar rapidamente, gastando pouco. Tampouco se imagina em plantões intermináveis, ouvindo os mais absurdos desaforos de pacientes e seus acompanhantes que em um momento de fragilidade descontam tudo em que está ali para tentar ajudar.

Calma gente, não estou aqui pra incentivar que a nossa tão mal interpretada geração Y abandone tudo e saia por aí cultivando seu jardim frutífero no quintal de casa. Mas no fundo, a ideia é mais ou menos essa. A princípio, só estou pedindo que você pense por alguns instantes como pensaria se fosse uma criança que ainda não foi influenciada pelos padrões doentios da nossa sociedade, é claro.

Crianças odeiam quando são colocadas em suas cadeirinhas dentro do carro, onde terão de ficar por horas sem nada pra fazer num trânsito maluco. Isso me lembrou quando uma amiga minha ficou sem carro e teve de levar a filha de ônibus para a escola. Adivinhem só? A menina ~ A D O R O U ~ e passou o dia comentando com os coleguinhas sobre sua aventura. Crianças preferem caminhar, correr, andar de bicicleta ou pegar um ônibus, uma van, um metrô, cheio de possibilidades de interação.

Bom, por mais utópico, poético, romântico e ideológico que possa parecer, eu e mais alguns ambientalistas, acreditamos que o nosso planeta, de uma forma geral, está em crise e que se faz necessária uma revolução sustentável. E não só acreditamos que ela seja possível, como temos inclusive algumas ferramentas para possibilitar sua concretização. Preparem seus coraçõezinhos para incorporarem esses cinco instrumentos em seus modos de vida:

Visioning;
Rede de Comunicação;
Sinceridade;
Aprendizado;
Amor

Eu sei que parece desconfortável confiar em instrumentos tão suaves diante da complexidade que é a vida em sociedade, mas se deem a chance de comprovar que tudo isso é mais que um mero sonho.

O visioning significa eliminar a descrença, os desapontamentos passados. É a ideia de idealizar um futuro melhor que vai variar conforme as necessidades de cada um, conforme o contexto social e político que cada um esteja inserido. Mas que sempre, inevitavelmente, vai esbarrar na questão da preservação dos recursos naturais, afinal, não há ninguém que possa imaginar um futuro sem água, oxigênio e alimentos.

A rede de comunicação tem um poder imenso, tem unido pessoas nos quatro cantos do mundo. Graças a essa viralização de informação, várias pessoas se mobilizam em diferentes partes do mundo e conseguem preservar espécies em extinção, pressionar os governos para adoção de políticas sustentáveis, salvar as mais variadas formas de vida. Outro dia eu compartilhei no meu facebook algo que aconteceu numa manhã de segunda, no elevador do meu prédio. Escolhi as palavras buscando causar empatia no leitor, de modo a tentar fazer com que cada pessoa que lesse se imaginasse naquela situação e, para minha agradável surpresa, minha pequena anedota teve mais de 7.000 compartilhamentos. o/ Os memes mais compartilhados atualmente são os que refletem em maior ou menor medida S I N C E R I D A D E.

Está chegando ao fim a era dos exageros nos photoshops, da beleza inalcançável, das propagandas enganosas das barbies que andavam de patins (fui iludida a infância inteira). Estamos buscando cada vez mais pela verdade, não por uma verdade dogmática e absoluta, mas por uma verdade que possa ser questionada, discutida, debatida. A sinceridade está dando as caras, e nós temos que abraçá-la.  Sinceridade na divulgação de informação, nas relações pessoais, nas relações de trabalho. As mentiras distorcem o fluxo de informação, e são propagadas aos quatro cantos como agrotóxicos lançados sem necessidade sobre uma plantação. Ninguém quer um líder político perfeito, impecável e que prometa mundos e fundos. Queremos líderes que se comportem como gente de verdade, que sejam suscetíveis aos erros, que assumam quando errem e que sejam capazes, principalmente, de aprender com os próprios erros.

Aprender envolve, sobretudo, permitir-se. Envolve um processo de confiança no compartilhamento de conhecimento. Aprender pressupõe humildade. Diferente daquele nosso sistema educacional que vigorou por tantos anos, hoje o conhecimento não é meramente transmitido de cima pra baixo. Os professores dialogam com os alunos. É uma via de mão dupla, onde todos saem ganhando. O aprendizado tem se tornado cada vez mais horizontal. Algo que os mais tradicionalistas veem como um caos, o fim da hierarquia e do autoritarismo. Não é mais o seu chefe que vai chegar e te dizer o que você deve fazer ou como você deve fazer. São seus colegas de trabalho que no dia a dia compartilham informações com você e você compartilha com eles.

Aos poucos estamos fazendo nascer uma sociedade de pessoas cujo prazer não se resume a comprar e comprar e comprar. Estamos estimulando a troca mútua, o reaproveitamento. Queremos aprender a fazer as coisas. Queremos aprender a cozinhar, limpar a casa, tirar aquela mancha maldita do nosso vestido preferido, trocar o pneu do carro, trocar a lâmpada. Queremos produzir nosso próprio alimento ou pelo menos saber onde e como ele é produzido. O tal do DIY (do it yourself), ou no bom e velho português faça você mesmo, está ganhando cada vez mais adeptos nesse mundo globalizado. E com isso, estamos descobrindo talentos que seriam engavetados caso não fossem estimulados.

E por fim, mas de maneira alguma menos importante, está o amor. Não nos é permitido falar sobre amor no ambiente de trabalho, exceto se utilizado em campanhas de marketing. O amor está dissociado do nosso sistema produtivo, tão dissociado que não nos importamos em comprar algo que tenha sido produzido sob o regime de escravidão em algum lugar da Ásia. Em tempos de modernidade liquida, o amor escorre pelos nossos dedos. Mas é somente através do amor e da empatia, que seremos capazes de dar sustentabilidade às nossas ações.

A revolução não acontecerá do dia pra noite e tampouco será atribuída a um grupo especifico de pessoas ou a partidos políticos ou a concepções religiosas. A revolução da sustentabilidade será orgânica, viva, multifacetada e transformadora. E ela começa a partir da influência de cada um sobre os demais.

Beijinhos de luz e de sustentabilidade.

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Vitoria Colvara tem 24 anos muito bem vividos. Apaixonada por viagens, crianças e livros. Advogada, professora de espanhol e kitesurfista, não necessariamente nessa ordem. Ambientalista de corpo, alma e coração.

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Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

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