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POR Bruno Pereira

Para aquilo que poderia ter sido e não foi

Colunistas / 14.09.16

… Andei pensando essas coisas. Mas ao certo mesmo, não sei. Eu sei que você gostaria que eu só tivesse certeza, mas eu não tinha. Não tenho domínio sobre minhas vontades, meus pensamentos, minha vida: nem destas palavras.

Fiz tanta coisa que alguns julgam errado; eu mesmo, Flávio. Bebi demais, experimentei drogas e mais drogas, transei com meia dúzia e sem nenhuma prevenção. Foda-se, não é? Você, que era minha vida, me deixou. Por que eu não posso me deixar? Ah, não estou falando tudo isso para que fique puto, pegue o carro e venha correndo de volta para casa e me sacuda tão forte que vai me acordar deste pesadelo em que nós entramos. Estou apenas contando os meus dias. E eles têm sido isso: poço. Aquele poço bem fundo e úmido. Choro todas as noites porque eu não sei onde estou. Canta Cauby Peixoto, de Chico Buarque, “Bastidores”: “Chorei, chorei, até ficar com dó de mim”… Tento te matar com todas essas outras pessoas sem conteúdo e que só me querem por hoje, amanhã não tem mais graça. Ninguém suspeita do meu coração destroçado e sangrando. Permito que vejam só o meu sorriso. Mas não vivo.

Mamãe veio me visitar no domingo. Logo no domingo em que estava acompanhado da minha pior ressaca. Mas ela cuidou de mim, e eu via uma profunda tristeza em seus gestos. Nem ela me reconhecia. Qualquer dia você também esbarra comigo naqueles restaurantes caros que gostava de frequentar e não vai me reconhecer. Fisicamente eu continuo o mesmo, estou me achando até mais bonito. É por dentro, sabe? É que por dentro eu estou em carne viva. Mas eu estou ótimo.

Tô tentando segurar bem a bola, Flavinho. Estou bem na faculdade; estou me envolvendo em projetos e minha pesquisa está andando. O trabalho está melhor ainda. Semana que vem vou para Europa com papai. Gosto mesmo dessa vida de luxos que anos de trabalho do meu pai me proporciona. Mas também preciso me inteirar do trabalho dele. Meu irmão não se interessa para seus negócios e parece que terei que assumir logo o comando. Mas o importante é a viagem e aquele ar refinado. Com sorte, nem volto. Mas não te esqueço.

Voltei a escrever, sabia? Nada que valha a pena ler, mas estou escrevendo. Também não sei nomeá-los. Alguns costumam chamar ora de contos ora de poemas, eu mesmo chamo de um grande lixo. Escrever. Era minha promessa, não era? Eu sei que não cumpri outras dezenas de promessas, entre elas te fazer feliz. Mas essa, não sei se bem ou mal ou muito ou pouco, estou cumprindo. Está me lendo? Eu sei que está. Não, não é arrogância, ego inflado, qualquer coisa assim, é porque eu sei que te toco. Mas também não escrevo para você. Escrever é umas das poucas coisas nessa vida-de-meu-deus que me salva. Às vezes acho que escrever me empurra para mais fundo do poço. O que não é ruim, pois o impulso para sair dele será mais forte.

Te escrevo para falar falar falar, mas não tenho nada a dizer. Andei sofrendo do coração. Nada grave, apenas saudade. E saudade é urgentíssimo, não é? Tento me acostumar com sua ausência. Canta Chico Buarque: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.

Flavinho, que não se perca. Que eu não te perca.

Axé! Axé! Axé!

Post-Scriptum: Seu perfume fica na lembrança de um tempo bom.

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Bruno Pereira é carioca; 26 anos; virgem com ascendente em câncer e lua em libra; assino Bruno P.; beletrista pela UFRJ; pós-graduando em Literatura; professor; ator amador no palco da vida; modelo; penso bastante, falo às vezes, escrevo sempre: escrevedor, menos escritor.

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