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POR Manoel Veloso

Quero te cuspir

Colunistas / 14.09.16

Escarro pelos cantos
Tentativa qualquer de te cuspir.
As unhas estavam grandes
Para na primeira oportunidade
Te atingir.

Ferir a carne,
Arranhar bem forte.
Mas só consegui raspar paredes.
Amor bandido,
Que veio e levou tudo.
Não restou uma calcinha para vestir,
Uma caneca para beber,
Tampouco qualquer merda de disco.
Terríveis vinis.
O arranhado daquela vitrola inútil,
Daquelas noites enfadonhas
Em que fui obrigada a discutir qualquer MPB
Entre cigarros contrabandeados.
Em que fui embriagada pelo vinho barato
Para que pudesse entrar por minhas coxas
Ainda suadas
Do dia de trabalho.
Não respeitava minhas maquiagens,
Forçava minhas curvas pouco sinuosas,
Reclamava do meu cabelo,
Borrava meu batom falso.
Nunca, de fato, me escutaste.

Era uma qualquer,
Com status de uma qualquer,
Deitava na tua cama como uma qualquer,
Pagava qualquer conta,
Bancava qualquer desejo,
Sustentava qualquer vício,
Topava qualquer suruba.
No cabo de guerra sempre fui mais fraca.
Afinal nunca fui qualquer uma.
Já não fui uma.
De um tornei-me uma.
E isso foi o que te ouriçou o tesão.
Chamou-me no canto para sermos dois.
Enganou-me com palavras bonitas.
Afinal esses ouvidos secos
Nunca haviam escutado tantos veludos.
Foram anos de socos surdos,
De choros forçadamente miúdos,
Dos pulsos em cortes profundos.
Tu nunca respeitaste minha história.
Viu em mim a chance de fazer
A famosa boquinha.
E de bocada em bocada
Meteu-me em tuas enrascadas,
Enroscou-me no teu pescoço e
No meu próprio,
Correntes, cordas, arames.
Fui tola.
Transformei minha vida,
Transformei minha história,
Transformei tudo que pude,
Para ser eu,
E, depois de tudo isso,
Para ser sua.
Que merda!
Entreguei meu corpo de maneira cega.
Que merda!
A cada escarro tento cuspir o que sobrou de ti.
Em vão.
Muito em vão.
Cá dentro ainda tem restos teus.
Impregnando-me com sei-lá-o-quê.
Enjoada.
Enojada.
Derrotada.
Destruída.
Estuprada.
Arruinada.

Mais uma vez
Eu só quero que tudo passe.
Não quero que ninguém me ame,
Não quero que ninguém me poupe,
Não quero que ninguém me sangre,
Não quero que ninguém me ouça.
Eu só quero paz.
Eu só quero estar em paz.
Eu só quero um minuto de silêncio.
Eu só quero não te sentir mais.
Eu só não quero mais ter um mísero pedaço teu.
Eu só quero te cuspir.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 22, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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