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POR Manoel Veloso

Salve-Todos

Colunistas / 29.07.16

Não é que a dor do parto seja ínfima
Que eu não me importe
Ou que me acostumei com a ideia de que acabou.
Mas é que o tempo
Necessariamente
Passou.

Eternas memórias
De encontros, desencontros,
Conquistas, perdas.
Momentos em que senti os extremos.
Do frio triturador de ossos,
Da ansiedade da chegada,
Do calor desértico,
Da plenitude do entorpecente,
Da dor de cabeça intensa,
Da exaustão,
Do recomeço,
Do (outro) fim.

Amei demais.
Briguei demais.
Brigamos demais.
Amamos de menos
Quando deveríamos ter demonstrado mais.
Assim decidi me prender nas memórias dos arredores
Daquilo que vivemos
Por onde passamos.
Não valeu a pena?
Claro que sim.
Seria uma pena dizer
Que uma história sem começo e sem fim não valeu.
Entretanto pena mesmo
É perceber que sequer demos a chance de que ela acontecesse
Porque egoístas demais
Fomos incapazes de ceder,
Incapazes de transpor muros imaginários,
Incapazes de ultrapassar os mares,
Incapazes de mergulhar nos oceanos.

Afoguei-me numa rasa poça de lama
Daquilo que você deixou que eu experimentasse.
Aquilo não era você.
Não por inteiro.
Aquilo era eu, à medida que você quis avançar,
Conhecer,
Tocar,
Lamber.
Não era meu eu inteiro.
A verdade é que não conhecemos nossos “eus” inteiros
E não deixamos conhecer.
E assim ficamos à superfície,
Em momentos de entrelaçar de dedos.
Momentos esse em que, à troca de carícias
Parecíamos afundar.
E interpretamos isso erroneamente.
Afundávamos pra conhecer aquilo que não estava à mostra.
Mas entendíamos que era um mergulho sem volta,
E o medo de sufocar
– sabe-se lá em que –
Separamos as mãos e voltamos à superfície.
Repetimos esse ritual infinitas vezes em poucos dias.
E ainda assim fomos ingênuos ao ponto de não entender
Que o mergulho era conjunto
Era eu e você
Você e eu.
E que isso só faria com que estivéssemos cada vez mais próximos,
Cada vez mais juntos,
Cada vez mais na sua,
E você, cada vez mais na minha.
Afinal, mergulhados sabe-se lá onde,
Só teríamos a nós mesmos.
E longe da superfície, isolados rumo ao fundo
Agarraríamos cada vez mais em nós.
E seria nossa salvação.
Seria a redenção.
Seria muito além da paixão.

Seria.
Poderia ter sido.
Poderíamos ter vivido.
Mas não foi.
No final desse ritual,
Tornamos a oportunidade única
Em uma brincadeira parva.
Aquela brincadeira em que nos escondíamos no escuro,
Na esperança de não sermos encontrados nunca.
E, em um momento evasivo e de pura sorte,
Salvaríamos a nós mesmos.
E só.
Egoístas que somos.
Seríamos incapazes,
Nós dois,
De sermos aquele jogador que, ao final da brincadeira,
Tinha a chance de salvar todos.
Por quê?
Porque sempre fomos universos em nós mesmos,
Acreditando sermos inteiros em nossos mundos,
De portas fechadas para qualquer outro.
Salve-todos?
Salve-se quem puder.

Depois de toda análise,
Do choro piegas,
Da garganta amargurada e cerrada,
Dessas intensas palavras,
O partir é mais que necessário.
É hora de ir, sim.
É hora de sair daqui, sim.
O tempo necessariamente passou
– ainda bem que passou –
E, mais uma vez,
Não serei eu a salvar ninguém.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 22, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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