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POR Bruno Pereira

Para todas as partidas

Colunistas / 20.06.16

… iluminada por violentos raios, acompanhada por estrondosos trovões, chuva densa, carregada, noite cinza, álgida, tempestade, uma cidade inteira afogada, nono andar, café quente, ebuliente, um livro de poesia nas mãos: solidão. Na outra extremidade, ao norte, ao centro, ao dentro, outra tempestade, ainda mais bruta, ainda mais gélida, ainda mais turva, chovia tanto, chovia chovia chovia-se, uma roupa inteira encharcada, numa mão um caderno sem pauta, sem vida, na outra, uma caneta, sem tinta; dentro, fora: penumbra e silêncio.

Colocaria uma música triste, bem doída, como a alma, mas escolheu a mudez. O que não mudara era a saudade, sempre intensa, nunca sanada, nunca sarada. Entre eles, gotas, chuva, lágrimas, tempestade, vendaval, um caminho árduo, alcantilado, muitas vezes ambíguo, turvo. Perderam-se várias vezes. Encontraram-se. Voltavam a se perder. E de novo se achavam. Mas sempre, sempre, perdiam-se. E sempre, sempre, era a parte mais triste. Porque, embora também seja caminho, perder-se é desabrigar, desertar, retirar-se. E nas partidas, sempre partia-se em cacos.

Tentava, após, remover caco a caco, lascas, grãos, pó, até o nada, e unir, refazer-se, preparar-se para uma nova partida. Mas ninguém nunca está cuidado para as partidas. Às cegas, tentava se e achá-lo no ausente; tateando o escuro; gritando ao vácuo; em resposta, sua própria voz; bruscamente, uma mão segurava a sua, abraçava-o, beijava-o, o tinha por inteiro, corp’alma, assim juntos, e com a outra mão, súbita e contraditoriamente, repelia-o. Tudo e, no momento seguinte, nada… Como confessar ao outro sua precisão? Como dar-se de uma maneira sem volta, sem ida e partidas? Como se manter inteiro e construir, e não arruinar? Por que vai se sabe que volta? Mesmo que não saiba, não vá. Mesmo que não volte, saiba. Saiba que. Estaria com ele porque é dessa forma, assim torta, estranha, pura, fera, crua, nua, íntima, da essência, da poesia, da (sua) existência, que se completa… buy levitra vardenafil.

Ele voa e flutua no ar, desaparece entre as nuvens e as montanhas distantes. Tudo parece mais afastado e perdido. Ele está longe, apesar de viver dentro de um enorme coração retalhado. Ele espera. (Des)concertado, espera. (Des)esperado. (Des)alento. (Des)esperança. Mas o ninho que o acolhe pode ser apagado pelo homem, pelo vento, pelo fogo ou pelo tempo. E talvez, quem sabe, um dia lembrará com certa saudade e vontade do acolhimento, do calor, do abraço, da confissão, do afeto, e, sobretudo, do menino que teve um dia, mas, por descuido, partiu…

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Bruno Pereira é carioca; 26 anos; virgem com ascendente em câncer e lua em libra; assino Bruno P.; beletrista pela UFRJ; pós-graduando em Literatura; professor; ator amador no palco da vida; modelo; penso bastante, falo às vezes, escrevo sempre: escrevedor, menos escritor.

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