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POR Andressa Valadares

Ensaio sobre a cegueira

Colunas / 06.06.16

 (Trilha sonora: Senhor, Cidadão – Tom Zé)

O olho é o órgão responsável pelo sentido da visão. No entanto, o poder de usar a informação visual não depende apenas de ver, mas também de compreender o que foi visto. Sendo assim, a função dos olhos no ser humano vai além da forma como a imagem visual é convertida em mensagem pelo sistema nervoso, ou seja, ela abrange também o campo da interpretação desta mensagem.

Dito isso, me atrevo a concluir que, ultimamente, fomos acometidos por um gravíssimo caso de miopia social. Perdemos, além da capacidade de enxergar com clareza, o dom de raciocinar com bom senso, o que, a propósito, dizem ser a principal característica que difere os homens dos animais.

Mas, por que digo isso?

Bom, toda a polêmica envolvendo o recente caso de estupro coletivo a uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro me fez ter a certeza de que está tudo muito errado. Vê homens e mulheres relativizando um crime, procurando justificar o injustificável, colocando a vítima como seu próprio algoz, me fez ter plena convicção de que o mundo precisa urgentemente de uma cirurgia de correção visual, além de um profundo estudo para entender o que se passa na cabeça de um ser humano que se atreve a relativizar situações como essa.

Na favela ou no asfalto. No baile funk ou dentro de casa. De saia curta ou de burca. Mulher nenhuma merece ser vítima de violência sexual e, ainda por cima, levar a culpa por isso. Ninguém pede para ser estuprada. Se a mulher pede para ter relação sexual e CONSENSUAL com um homem, seja com 1 ou com 30, não é estupro. Mas, se ela não tem opção de escolha ou condições de responder por si e, por isso, alguém se acha no direito de violá-la a força, não há o que se hesitar. É estupro. É crime. E NÃO EXISTE ‘MAS’.

Há séculos se luta pela liberdade feminina, em todos os aspectos. Mas, parece que estamos sempre dando 10 mil passos para trás. É um retrocesso que sempre vem à tona quando somos confrontados com situações desse tipo, em que se busca o histórico, se traça um ‘perfil’ e se relativiza uma atrocidade baseada na premissa de que se a mulher fosse ‘bela, recatada e do lar’ nada disso aconteceria. É aí que nasce a cultura do estupro, no cabresto do tão superestimado e seletivo respeito da sociedade. Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?

Diz-se que a civilização nasce a partir do desenvolvimento de aspectos culturais peculiares a um determinado povo. É como se fosse um conjunto de características próprias da vida social, política, cultural, entre tantos outros pontos que, teoricamente, compõem o cerne da vida em sociedade. Sinceramente, esse é um conceito que me deixa muito preocupada, pois se a nossa civilização daqui em diante se desenvolver baseada nos atuais ‘aspectos peculiares’ que nos permeiam, eu espero profundamente que o mundo pare e eu possa descer para pegar o primeiro ônibus espacial rumo à Marte!

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Andressa Valadares é jornalista e socióloga de botequim. Acredita no delírio cultural em massa de que a aparente posição do sol, relacionada com as constelações na hora do seu nascimento, de alguma forma afeta sua personalidade.

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