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POR Bruno Pereira

Trinta e três homens me mataram numa noite

Colunas / 02.06.16

Era sábado à noite. A noite encantava com seus mistérios. Mas há noites dentro da noite, que muitas vezes causam, despertam e motivam o desconhecido. Teme-se o que não se conhece. O medo nos envolve com sua penumbra fina, gélida, paralisante, mas igualmente forte. Escuta-se uma voz ao longe – ou vozes, muitas -, o sombrio toma ainda mais força, travando os passos das pernas, impossibilitando a locomoção que já estava meio falha.

Aparece um. As mãos congelam, irradiando para braços, subindo até ombros, chegando ao pescoço quando aparece o segundo, já com o nó na garganta, não há como gritar. Parados, observam como um animal analisa friamente sua presa. Surge o terceiro. Forma-se um triângulo. O epicentro sou eu. Um riso ecoa de dentro de onde não enxergo. Não tenho mais medo, mas pavor.

Ainda me olham compenetrados. Aparece outro, outro, outro, outros. Um. Dois. Três. Trinta e três. Cercam-me. Tudo parece meio escuro, às avessas, meio tonto, turvo; a voz fica presa no mais dentro de dentro de mim. O que poderia ser falado era ainda mais abafado, naturalmente abafado por ser uma voz de mulher. Eu estava cercada por trinta e três homens e minha voz não saia, eu não os enxergava bem, apenas os sentia. E doía n’alma senti-los. Eles riam de mim, da minha condição frágil, da minha incapacidade momentânea, da minha feminilidade. Eles riam do que eu era. Seguraram-me com brutalidade, e eu não sabia lutar; julgaram estar me fazendo o bem, mas me matavam lentamente. Sentia toques agressivos no meu corpo, vozes roucas no ar, dureza no contato. E assassinato. Assassinatos: de mim, de todas elas, de todos nós. Desumanamente, mataram-me no silêncio de uma noite fria.

Trinta e três homens me mataram para saciar seus boçais desejos, inumanos. Expuseram-me ao frio, ao alento, à incapacidade de viver, de sonhar, de crescer, à dor, à tristeza, à frágil condição de ser mulher, ao mínimo, ao pouco, ao nada. Mostraram-me, mais uma vez, a parcela de crueldade que existe em cada ser humano, o ódio gratuito ao próximo, mesmo sabendo que o legado deixado era para amar o próximo como a ti mesmo.

Mostraram-me a frágil condição de ser mulher, igualmente como mostram diariamente o delicado estado que é ser negro, ser homossexual, ser pobre, ser periférico, ser nordestino, ser índio, de vestir branco e usar guias. Apenas por ser-mos, matam-nos. Apenas por não sermos como eles. Não me culpe por esse sangue que escorre pelo meu corpo, pela exposição tamanha, pela falta de liberdade, por terem me assassinado de maneira atroz, ele é fruto da sua falta de amor. Não é apenas por mim, não é um crime contra uma mulher, é contra todas; é uma selvageria contra a humanidade e contra a possibilidade de ser.

É por ser-mos em nossa plenitude humana, é por ser-mos e existirmos que damos a mão ao próximo, firmes, para tentar caminhar mais forte, ainda que nossa estrada seja manchada de sangue e molhada por lágrimas; ainda que nosso caminho seja escuro, dolorido, sangrento, tempestuoso, com tristes e irreparáveis perdas para a intolerância e para o desrespeito, ainda assim é preciso seguir e lutar, como se germinássemos das mortes diárias, porque todos, todos, todos, absolutamente, têm direito de ser o que se é.

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Bruno Pereira é carioca; 26 anos; virgem com ascendente em câncer e lua em libra; assino Bruno P.; beletrista pela UFRJ; pós-graduando em Literatura; professor; ator amador no palco da vida; modelo; penso bastante, falo às vezes, escrevo sempre: escrevedor, menos escritor.

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