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POR Bárbara Hellen

“Que morte horrível” ser mulher esses dias

Colunas / 02.06.16

Já recebi em diversos grupos do meu Whatsapp uma “corrente” com várias justificativas que dizem que a menina de 16 anos, estuprada por 30 homens, tem lá sua culpa. E logo pensei o quanto é irônico que a mulher é sempre parcialmente culpada, né? Sempre há uma roupa curta que provocou, ou uma bebida a mais, ou qualquer outra justificativa supostamente plausível para um crime.

No caso da menina, o intuito é bem simples: derrubar sua reputação para garantir que ela é culpada pelo o que aconteceu. Para isso, foram reveladas fotos dela com armas, áudios mostrando quão vadia ela é e até dizendo que ela queria fazer sexo com 30 homens. E, em todos os grupos onde vi essas “informações”, sempre a maioria tinha um pé de dúvida. Talvez ela queria isso. Talvez ela tenha pedido por isso. Assim como as mais de 50 mil mulheres que tiveram sua dignidade arrancada em 2014.

Olha, não duvido que ela tenha dito que aguentava 30 homens, ou 50, ou 1000. Ela podia ter feito sexo consciente com 40 homens e ter amado. Ela podia ter dito que aguentava era até mais. Um pequeno erro, porém, passa despercebido para aqueles que tentam justificar a violência sexual. No momento em que ela não tinha opção de dizer “não”, ou de dizer “para”, é estupro.

Ela podia ser safada, ter feito várias escolhas erradas na vida dela e pode até viver em um lugar onde esse tipo de crime é comum. Nada, nada e nada – entendam: nada! – justifica o estupro.  Quando uma mulher está desacordada, por drogas ou bebida ou qualquer outro motivo, e trinta homens decidem que é normal transar com essa mulher, não se enganem: é crime, é estupro.

Vou mais longe: nenhum desses homens percebeu que seria errado transar com uma mulher desacordada. O que mostra o quanto a falta de respeito a dignidade e a liberdade de escolha da mulher é comum.

E, pasmem, piora: quando esses homens decidem jogar nas redes sociais vídeos e fotos dessa mulher jogada no chão, essa mulher é vítima. Mesmo que ela seja drogada. Mesmo que ela seja vadia. Mesmo que ela seja traficante.  Independente na realidade que ela vive, do que ela possa ou não ser, não vamos confundir: ela teve sexo inconsciente com 30 homens. Ou seja: ela foi estuprada.

Ainda que as escolhas dessa mulher sejam diferentes do ideal, naquele dia ela não teve escolha. Se na realidade que ela vive isso é comum, não é porque é comum que é certo. E se ela for criminosa, nesse crime ela é vítima.

Percebo, enfim, que falta educação. Sobre consentimento, sobre aceitar um “não”, sobre respeitar o direito de escolha do outro. Falta o conhecimento que a mulher – quem diria – tem vontades e pode, meu Deus, não querer transar com você. Porque ela não tá afim. Porque ela desistiu. Porque ela está cansada demais, ou bêbada demais, ou drogada demais. Porque, talvez, 30 seja demais. Um seja demais.

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Bárbara Hellen é jornalista. Trabalha como editora-chefe do site BH e coordenadora de conteúdo do portal tvguara.com. Troca qualquer coisa por um bom livro ou um sábado na praia. Tagarela e cheia das opiniões, adora conversar sobre política e religião… Ou sobre qualquer outra coisa. Ama Fernando Pessoa e cai no clichê ao crer que sim, tudo vale a pena se a alma não é pequena.

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