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POR Bruno Pereira

Eternizar

Colunistas / 18.05.16

Era sexta-feira, dia de branco, salve Oxalá!, Sob a lua crescente em gêmeos, quase câncer, e, impulsivamente, pomo-nos a fazer coisas como andar, conhecer lugares, bares, esquinas, pessoas, ter-e-ser outros corpos, numa tentativa desenfreada de apenas não ser só-consigo-mesmo. E então o vi.

A primeira vez que o vi, dito assim, sem muito esmero, fui tomado por algo sem nome. Susto, talvez. Medo. Ou taquicardia. De qualquer forma, fui surpreendido por algo que não sabia se era bom ou ruim, mas sentia. Ali, parado, ele me esperava com um sorriso largo, e eu meio tímido, sem saber se sorria ou. Apertei sua mão, maior que a minha, forte, ele elogiou minha roupa, e, sem saber o que dizer, resolvi sorrir de volta, aquele sorriso que deveria ter sorrido no começo, meio atrasado, eu sei, mas sorri de volta. E já era um começo daquela coisa que não tinha nome.

Na sala escura, pessoas ao lado, cada uma à sua maneira, umas distraídas, outras concentradas na sétima arte, eu olhava fixo para a tela gigantesca, na qual passava um filme onde predominava a cor branca, neve, gelo, frio e uma mão quente tocando a minha. Contrária à cena congelada na tela, naquele lugar eu me sentia aquecido, agora com um braço envolta de mim, uma mão segurando a minha e os lábios de outrem que, em choque, encontravam os meus, dentro de algo que, ainda assim, não tinha nome.

Durante longas e intermináveis horas – que, penso hoje, não foram tão intermináveis assim, infelizmente -, eu estive na companhia daquele homem que não sabia ao certo para onde ia ou de onde vinha, mas que resolveu ficar ali comigo. E aquele tempo, que não se media convencionalmente, mas se media mais pela intensidade da forte áurea que circundava, foi congelando, cristalizando, eternizando. E estar ali, eterno, como dois meninos, era bom.

Noite a fora, mão grande, abraço delicado, carinho forte, beijos quentes, demorados, longos, eternos, corpos rígidos, homens, pelos sobre pelos, eviternos, aqueles dois, poema, prosa, poema em prosa, prosa poética, enumeração caótica, explosão tipográfica, palavras, letras, literatura, sentir, ser, sentir-e-ser, mas ainda não tinha nome. E não se fazia necessário: não coloquemos nome, não contemos tempo. Aprendi, certa vez, que o bom das coisas sem nome é que também elas são sem tempo.

Aquilo que não tinha nome era certa alegria que não se explicava. Para alguns, talvez os mais impulsivos, como eu, chamariam de “o nascer de um novo amor”; outros, talvez os mais prudentes, diriam que é “o despontar da forma mais bonita da dor”. Sem saber o que pensar ou como agir, eu estava dentro daquilo: ali, motriz – o tempo eternizado no momento de um beijo -, eu também fui feliz.

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Bruno Pereira é carioca; 26 anos; virgem com ascendente em câncer e lua em libra; assino Bruno P.; beletrista pela UFRJ; pós-graduando em Literatura; professor; ator amador no palco da vida; modelo; penso bastante, falo às vezes, escrevo sempre: escrevedor, menos escritor.

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