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POR Bruno Pereira

Carta ao menino do tambor

Colunistas / 28.04.16

Para ler ao som de “Olha para o céu”,

de Luiz Gonzaga e José Fernandes,

na voz de Maria Bethânia.

 

Às vezes me pego pensando naquele menino do tambor. Tão bonito dentro da sua roupa branca. Tão bonito dentro da sua forma humana, que cabia a delicadeza e a força do som. Às vezes me pego pensando que talvez eu tenha demorado demais para falar o quão bonito ele era, que eu sorria escondido todas as vezes que ele sorria ao longe, porque muito me interessava os sorrisos alheios, especialmente o daquele menino que eu não sei o nome – talvez tivesse um nome difícil, diferente; talvez não tivesse nome algum, mas eu chamaria meu menino, assim mesmo, usando um pronome possessivo, sem ter posse -, e talvez esteja muito tarde para saber seu nome. Possivelmente não me interessava mais seu nome, mas, sim, ele mesmo, como pessoa – e alma. Eu não tive tempo de dizer que amava perdidamente aquele garoto assim que apareceu na minha frente com um sorriso largo e me pedindo a benção. Eu não sabia ou tinha poder para abençoar alguém, mas o abençoava. Eu também não tinha condições de amar alguém, mas eu o amava. E nunca disse da forma como estou dizendo agora, nua e crua, tão íntima, porque a minha intimidade é feita com palavras. Eu gostaria que o menino do tambor soubesse que o amo de uma forma tão especial, espiritual, pura, límpida e clara, não mundana, desinteressada, forte e intensa. Talvez não fique muito clara a minha forma de amar, porque eu também não sei muito bem fazer isso. O meu primeiro tropeço foi não dizer que te amava enquanto já te amava. O meu segundo erro foi demorar para te encontrar, porque nessa demora você foi se perdendo e eu não sabendo o que fazer, e também fui me perdendo, mas sempre na esperança de te reencontrar nessas estradas estranhas da vida que, curiosamente, também me fizeram te enxergar no meio de uma multidão que girava ao meu redor; talvez eu estivesse muito tonto, o labirinto às avessas, o som alto demais, mas também tinha absoluta certeza que nenhum ritmo era maior do que de meu coração, que pulsava sangue e vontade de te reencontrar novamente e outra vez e de novo, como esta vontade que me atinge neste momento enquanto escrevo esta carta que não te enviarei, porque não sei seu nome, seu endereço, seu eu, porque não sei absolutamente nada de ti. Mas nada disso importava, porque o importante era dizer ao longe, para o tempo, para além do fim do tempo, para o que não se vê mas infinitamente se sente, até que minha mensagem chegasse ao seus ouvidos em forma de sussurro, que eu te amava, que eu te amo, meu menino, que eu não te esqueço desde aquele sorriso, daquele abraço, daquele contato, daquele dia ensolarado de verão que alumiou toda a minha vida e aqueceu minh’alma. Onde estiver, meu menino, olhe para o céu, pense um pouco em mim, porque eu te mando as mais diversas formas de amor que alguém pode mandar para outro alguém; talvez um pouco desajeitado, meio torto, porque eu também sou feito de erros, mas principalmente sinta o amor que eu te mando e tenho e prometo eternamente ter e te cuidar até o seu sorriso virar uma estrela, a minha estrela guia.

Onde estiver, nunca esqueça de cantar para mim, porque você é música, e eu sou poesia.

Assina esta carta o menino da palavra.

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Bruno Pereira é carioca; 26 anos; virgem com ascendente em câncer e lua em libra; assino Bruno P.; beletrista pela UFRJ; pós-graduando em Literatura; professor; ator amador no palco da vida; modelo; penso bastante, falo às vezes, escrevo sempre: escrevedor, menos escritor.

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