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POR Bárbara Hellen

Você não deveria ser tudo para o outro

Colunistas / 25.04.16

“Uma pessoa não pode dar tudo à outra pessoa”

Essa frase acima foi dita com sabedoria pelo personagem Frank Underwood, na quarta temporada de House of Cards. Na cena, ao conversar com sua mulher, Claire, sobre o relacionamento aberto que eles construíram na série, Frank fala com sinceridade e calma. Admite que não consegue dar tudo à ela, e isso é ok, pois a parceria formada permite que eles possam buscar em outras pessoas aquilo que o outro não pode dar. E isso não significa que ele ame menos ela, mostra o quanto ele a ama.

Fiquei pensando o quanto não somos acostumados com esse tipo de desapego. Na verdade, mais que isso, nós não fomos educados para o desapego. Meu pai, minha mãe, meu irmão… Até na maneira de falar agimos com posse. Durante muito tempo, nós fomos posse de alguém. No passado, as mulheres eram apenas “posse” do homem e não tinham controle algum sobre a sua própria vida. Hoje, as mulheres também controlam seus maridos e namorados, que deixam de agir como gostariam.

Li um texto explicativo sobre a maneira de construir relacionamentos. Se hoje construímos nossos relacionamentos de maneira radicalmente sentimental, é porque no passado o casamento era uma escolha radicalmente racional. Casava-se com quem era mais conveniente. O sentimento entre aquelas pessoas não contava. E isso mudou: passamos a casar com “o amor das nossas vidas”, os pedidos de casamento se transformaram em um evento a parte e amor só era amor quando era declarado aos quatro ventos.

Com isso, não racionalizamos decisões importantes. Na verdade, quando nos relacionamos, não vemos quem a pessoa realmente é e sim quem queremos que ela seja. Lutamos a todo custo para mudar quem ela é. Tudo para que ela possa nos dar tudo que nós necessitamos. Tudo! E aí, quando nos vemos limitados a um relacionamento que não pode dar tudo, achamos que aquele relacionamento é um fracasso.

Creio que pouquíssimas pessoas são capazes de ter um relacionamento aberto. Mas podemos levar uma lição: é preciso desapegar da posse e deixar o outro busque o que você não pode dar.

No caso de Frank, ele não consegue estar com a mulher o tempo inteiro e nem satisfazer seus desejos emocionais. Mas na vida real seu namorado não consegue conversar de trabalho com você, ou você é fã de cinema e ele já não curte tanto. E não é porque você não pode dar isso a ele e que ele busque os amigos, por exemplo, que ele não te ama. Apenas, como o Frank disse, ninguém é capaz de completar o outro e viver de um só relacionamento.

Tem um textinho famoso que diz que o laço quando é muito apertado vira nó e deixa de ser laço – ou algo assim. O desapego é não deixar que as ligações feitas pela alma sejam desfeitas pelo orgulho de ter uma pessoa e não apenas ser uma pessoa feliz sem precisar que o outro a faça feliz.

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Bárbara Hellen é jornalista. Trabalha como editora-chefe do site BH e coordenadora de conteúdo do portal tvguara.com. Troca qualquer coisa por um bom livro ou um sábado na praia. Tagarela e cheia das opiniões, adora conversar sobre política e religião… Ou sobre qualquer outra coisa. Ama Fernando Pessoa e cai no clichê ao crer que sim, tudo vale a pena se a alma não é pequena.

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Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

 

2 respostas para “Você não deveria ser tudo para o outro”

  1. Iara says:

    Sempre visito o este blog a procura de novos textos. São maravilhosos e sempre me ajudam muito.

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