Foto Colunista

POR Bruno Pereira

Uma pintura

Colunistas / 20.04.16

Para ler ao som de “Vida de bailarina”,
de Américo Seixas e Dorival Silva,
na voz de Elis Regina.

 

Não sei que horas eram, mas era à tarde, talvez um pouco depois do almoço, talvez um pouco antes do lanche, mas no tempo exato de uma saudade. Saí da livraria, andei por aquelas movimentadas ruas do Centro da cidade, o pensamento no amanhã, a lembrança do ontem e o avistar de um quadro. Do outro lado da rua, não muito longe, distante apenas por aproximadamente dez passos e algumas cabeças que cortavam a vista, um homem vendia quadros. Não, não eram apenas quadros, eram pinturas, era o seu dom, ele vendia o seu dom. Ainda do outro lado da rua, eu observava quedo aquele homem que não era jovem nem velho, sujo de tinta, finalizar sua mais nova obra. Com traços finos, mas camuflando rabiscos mais grossos, aquela pintura foi me levando ainda mais longe e, assim, eu ia ficando mais parado, mais distante de mim, daquele lugar, daquelas pessoas, até do próprio homem, e focava apenas naquela bailarina. Aquela imagem de uma bailarina sem feição, com tons leves, levou-me ao encontro, dançante, daquela pintura de bailarina da sua sala. Você não gostava, lembrei. Mas era uma de suas obras que eu mais admirava, talvez secretamente quando sentava no sofá enquanto esperava você tomar banho, talvez declaradamente quando confessava que a achava linda, e você sorria de volta dizendo que era bobagem, como se disfarçasse um muito obrigado!. Mas, calado, eu entendia.

Alguém falara mais alto e eu despertei do meu sono acordado. Foi quando uma senhora elegante, trajando um vestido levemente rosado, algumas pulseiras brilhantes, uma bolsa branca grande, já estava se encarregando de comprar aquela arte. Pouco a pouco, aquela mulher foi levando a pintura e junto dela minha lembrança e acentuando minha saudade e verificando um vazio e como se encerrasse o espetáculo as pessoas iam dispersando, o artista parecia guardar suas obras, a noite parecia se aproximar, eu ainda não sabia que horas eram, e também não me importava mais. A cortina tinha se fechado. Eu, na plateia, não via mais seu dom. Você, no palco, não me enxergava naquele imenso auditório onde todos te aplaudiam. Mas todos os dias eu passava naquela mesma rua, naquele preciso horário, para (re)viver aquela nossa dança.

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Bruno Pereira é carioca; 26 anos; virgem com ascendente em câncer e lua em libra; assino Bruno P.; beletrista pela UFRJ; pós-graduando em Literatura; professor; ator amador no palco da vida; modelo; penso bastante, falo às vezes, escrevo sempre: escrevedor, menos escritor.

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