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POR Manoel Veloso

Suicídio

Colunistas / 18.03.16

A palavra por si só já causa um mal-estar, não é mesmo? O engodo na garganta permanece, a gente vira o rosto, perde a fome, fica sem graça. Mas é inegável que isso anda assombrando muita gente por aí, que os números têm aumentado e que se continua noticiando (quase) nada sobre.

Existe um acordo de damas e cavalheiros jornalistas, como um Código de Ética velado da profissão, de não noticiar suicídios ou, caso o façam, de seguir diretrizes estabelecidas pela OMS – Organização Mundial de Saúde. A justificativa? Não incitar outros suicidas em potencial. Então aqui e acolá escutamos algo, mas muito pouco. Raríssimas e parcas linhas, como se sussurrássemos, na esperança de que mal escutemos e sequer pensemos sobre.

E nesse “finge-que-disse-mas-não-disse”, encaramos números escabrosos. Espantou-me muito saber que minha cidade natal desponta em rankings do tema. Em menos de 48h, Teresina registrou 3 suicídios – e isso agora, entre os dias 10 e 11 de Março.  Os números são tão alarmantes que foi criado há poucos anos o Comitê Estadual de Combate ao Suicídio, que estuda o fenômeno e dirige políticas públicas para reverter esses números. Para se ter ideia, entre 1998 e 2008, a taxa de suicídio para cada 100 mil habitantes subiu de 6 para 9,6. E entre a população jovem, na mesma época, esse número mais que dobrou: saltou de 5,7 para 14,4 para cada 100 mil habitantes.

A causa? Especula-se. Problemas mal resolvidos, imposição de um modo de vida, falta de perspectiva, consumismo, depressão e transtornos psíquicos. Mais especificamente sobre a realidade do jovem teresinense, o que se fala é, exatamente, no oximoro entre a juventude e o tradicionalismo que paira sobre a população. Não é de hoje a dificuldade de convívio entre gerações. Ainda mais em uma região (essencialmente) heteropatriarcal, machista, homofóbica e conservadora. O plano de vida estabelecido pelos mais velhos deve ser seguido à risca, junto com as melhores notas da escola, os primeiros lugares nos vestibulares, a estabilidade antes dos 25, bem como família, filhos, casa própria. Se, para mim que escrevo, essa última frase foi exaustiva, não consigo imaginar o peso do fardo daqueles que estão sendo observados, tolhidos e escravizados pelas vontades alheias.

Tirar a própria vida parece ser a fuga de uma sociedade doente. Para exemplificar, alguns dados: quanto às mulheres, a violência sexual é gritante, com 2.887 casos registrados entre os anos 2004 a 2013 (desse total de casos, 57 ficaram grávidas dos seus estupradores); ainda sobre a questão de violência de gênero, o Piauí dói o 2º estado do país com mais denúncias no “Disque 180”, com 44 ligações para cada 100 mil habitantes; quanto à LGBTfobia, Teresina é a capital com maior número de ocorrências (em proporção) – 15,6% dos homicídios de 2012, por exemplo, foram motivados por homofobia. Dos crimes acima citados, as mesmas pesquisas apontam familiares e vizinhos como os principais agressores.

É uma bola de neve: pessoas que precisam de ajuda tentam refúgio em uma sociedade doente que, sem saber atender às necessidades dessas pessoas, responde com intolerância e violência. Do beco sem saída, não resta alternativas.

Diante de tudo isso, ainda assim, permanecemos calados. Os números resistem, permanecemos apenas nos entreolhando e nada fazemos. A barreira do silêncio deve ser a primeira coisa a ser transposta para que possamos, de alguma maneira, impedir a multiplicação de casos. É preciso permitir que as pesquisas sejam feitas; que os psiquiatras atuem; que se vençam os preconceitos com os transtornos psiquiátricos; que se busque ajuda; que se possa ajudar. Que, por fim, possa se falar sobre suicídio.

P.S.: e, assim, possamos terminar textos e terminá-los abruptamente, sem antecipar pontos finais.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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