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POR Isabel Fonseca

Marinheiras de um barco só

Colunistas / 03.03.16

Nada me aterroriza mais o juízo do que perceber em mim sentimentos ruins por alguém. Por qualquer ser humano que seja. Não desejo de forma alguma senti-los, muito menos avaliar e ponderar os motivos – esterótipos e convenções bastante enraizados, quase imperceptíveis – que me levam a essas sensações. Mas o estorvo atormenta e é ainda mais forte quando me vejo canalizando tudo isso por uma mulher. Uma conhecida. Colega. Amiga. Uma tia. Senhora. Minhas aliadas biológicas, antes de tudo e mais nada.

Moças adultas que partilham dos meus vigentes e futuros dissabores (cólicas, excesso de hormônios, vulnerabilidade diária, peitos inchados todo mês, exames diabólicos – e aí, preventivo, tudo bem? – menopausas e outras infinidades de coisas) que sustentamos nas costas só por ter um túnel da alegria entre as pernas. Mas respiro fundo, penso e concluo: A vida é uma eterna desconstrução. É buscar evoluir sempre e sempre. Absorver cada detalhe das consequências dos nossos equívocos e entender o poder que se tem em mãos.

Só que a minha consciência grita. Grita quando julgo uma mulher que não gosta de usar maquiagem e se depilar. Ou outra muito bem arrumada às 7:00 da manhã. Quando condeno a que gosta de beber e beijar mais de uma boca aos fins de semana. As que dançam e rebolam maravilhosamente bem, chega dá uma inveja. Uma inveja que disfarço apelidando de promiscuidade. Quanta hipocrisia, Isabel. Que direito é esse que você acha que tem para reduzir as pessoas a uma mera requebradinha? A um número divertido de beijos? A excedentes e carências? Seja mais compassiva. E para de julgar também as que vivem a castidade. Que se dedicam integralmente a uma religião. As auto-suficientes. As emocionalmente dependentes. As que você supõe que estão acima do peso. E as que estão abaixo também. As que adoram um sertanejo. Ou ouvir Slipknot. Vegetarianas e viciadas em McDonald’s. As tímidas e extrovertidas, as recatadas e dadas, as inteligentes e despreocupadas, as baixas e altas, as que não querem engravidar nunca e as que são mães desde os 16. Não é para condenar nenhum dos extremos. Nem os meios. Os filósofos proferiram há séculos: Não existe verdade absoluta. Não existe acerto e desacerto.

Nós não somos um grupo homogêneo. E isso é lindo demais. Todas essas diferenças, toda essa diversidade de mulheres exuberantes à sua forma, deveria nos encantar. Mas nos ameaça. Nos mergulha em uma disputa doida, sem nenhum, nem dois, nem três sentidos. É uma discórdia gratuita e desnecessária. São combates e condenações que só machucam e servem para incitar esse cenário cansado de última volta da Fórmula 1. É um caminho que não compensa a linha de chegada. Nunca serei vencedora de nada se para alcançar o pódio, desmereço características e trejeitos tão excepcionais em uma mulher. Não me metamorfosearei uma medalha de ouro ao humilhar alguém que dispa do meu padrão tão circunstancial. Portanto, vou separar essa frase do resto do texto para que ela invada sua cabeça como um eco infinito:

Nós estamos todas juntas, comandando um barco à deriva em um mar que já foi mais agitado, mas que ainda nos reserva grandes lutas (internas e externas). Nós só temos umas às outras para não deixá-lo submergir.

Obs: A Isabel-julgadora-mor-de-pessoas ficou em 2013. Ela ainda tem muito o que aprender, lida diariamente com a sua hipocrisia e seus deslizes, mas se tornou muito mais humana e ciente da dimensão e beleza que é a existência das pessoas. É totalmente fascinada por isso.

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Isabel Alice, 20 anos. Não sabe se definir, não sabe o que quer da vida, mas tem a petulância de dizer que você não vai encontrar um ser humano mais distraído, ansioso e lunático que ela.

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Uma resposta para “Marinheiras de um barco só”

  1. Isabel sendo Isabel e me enchendo de orgulho. <3

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