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POR Manoel Veloso

Ler, verbo intransitivo

Colunistas / 03.03.16

Sinestesia, convergência e explosão de sentidos e sentimentos. Um bombom de licor, trazendo o torpor de um primeiro encontro com a imensidão do mais belo mar do mundo. Talvez apenas dobrar a esquina e encontrar uma aventura inescrupulosa do nascer de morangos em um jardim fantástico. Abrir e fechar janelas. Encarar novas portas. O cheiro do papel recém-impresso. Passar páginas. Encontrar novas personagens. E, então, ler o livro até o fim.

A primeira leitura é inesquecível. Lembro-me de segurar aquele pequeno exemplar de tecido e perguntar a meu pai como eu poderia brincar com aquilo se não era uma bola (muito menos uma porção de blocos para minha pequena cidade em construção). Ele me ensinou que naquelas pequenas frases eu encontraria minha cidade completamente construída, cheia de pessoas, carros e barulho. Que, ali, havia várias crianças a brincar em enormes parques verdes. E, se eu quisesse, poderia juntar-me a elas. Receoso, pedi para que ele começasse. Já imaginou se na primeira rua da cidade me deparo com o mostro que se escondia em meu armário? Meu pai mergulhou com enorme facilidade, enquanto eu parecia um cisne desengonçado prestes a afundar na superfície de um lago gélido.

A cada frase lida, uma música diferente, um sabor acre-doce, um cheiro desconhecido, meu retrato risonho em paisagens nunca antes vistas. Ou tudo ao mesmo tempo. As palavras embalavam-me em uma rede de descobertas. Encontrara, enfim, a flor do Lácio, os deuses do Parnaso e um universo de dimensões em uma porção de folhas ordenadas na seqüência do infinito. Desde então, nunca me separei dos livros. E seus mudos gritos de ensinamentos seculares deixam minha mente em um intenso frenesi.

Apaixonar-se pelas palavras não é simplesmente descobrir coisas novas. É entrar em uma biblioteca e, em cada exemplar, poder experimentar uma vida diferente da sua. É encontrar em uma livraria com um café refúgio de tudo e de todos que insistem em te perseguir. Ler é reencontrar o futuro. Ler é redefinir o passado. Ler é desconstruir o presente. Ler é permitir-se o impossível. Ler é viver novos romances. Ler, muito mais que hobbie. Ler, muito mais que um prazer. Ler, engolir palavras, antropofagia, deglutir, ruminar. Ler, arte de viver. Ler, verbo intransitivo.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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