Foto Colunista

POR Manoel Veloso

8 ou 80

Colunistas / 18.02.16

Você está rodopiando pelas redes sociais sem objetivo nenhum. Começa a saltar nas publicações do amigos. Curte umas fotos, alguns memes. E ai uma postagem especialmente engraçada chama a atenção e, além de curtir, você resolve ver quem também curtiu como você. Lê alguns comentários também. E, em meio aos cliques, encontra um perfil interessante. Uma foto legal, junto com uma foto de capa com uma cena de um filme bacana. Alguns livros e bandas em comum. Uma foto em uma festa que, por acaso, você também esteve. E, se duvidar, confirmou presença em um evento público de aula de Yoga, ou em alguma passeata política contra a redução da maioridade penal. Talvez até tenha compartilhado alguns textos que comentam sobre salgadinhos de feira e sua relação com comportamentos inescrupulosos que compactuam com a mídia de massa. E já é mais que o suficiente. Sedento por atenção, carinho ou, sei lá, um abraço que seja, perde-se o fio da meada e imagina-se logo um primeiro encontro, as primeiras mensagens, aquela ansiedade gostosa pela próxima conversa. Até aquela hora complicada de dizer “até amanhã” em que se fica à espreita vendo se a pessoa foi mesmo dormir ou se continua online.

Sempre com muita sede ao pote. A verdade é que essa correria tirou de nós a paciência para a construção. Não compreendemos bem o passar do tempo. Vinte e quatro horas é tempo demais. Queremos com urgência. Queremos aqui e agora. E que, se as coisas não caminharem como bem entendemos e (falsamente) planejamos, insistir é deveras perda de (tão precioso) tempo. E é melhor terminar. Perceba: terminar aquilo que sequer demos a oportunidade para engatinhar. Porque eu amo aqui e agora a para sempre. Se não for assim, melhor que nem exista.

E, de repente, pulamos para o lado completamente oposto. As relações são rasas, fluidas, inquietas, meramente carnais. Vazias. Não nos permitimos um mínimo de envolvimento. Cedemos puramente à luxúria. Fast. Operação tampa-buracos: aqui e ali, sem nunca permitir que seja inteiro.

Nem mel, nem cabaça. Não sabemos ir devagar. Desaprendemos a pular de cabeça sem se estrepar completamente. Jogamos a culpa do insucesso no zodíaco, na modernidade, na tecnologia, no outro. Recusamos nosso reflexo no espelho e assumir a própria cruz. Assumir que queremos muito, mas sem muito esforço. Que queremos o mundo, mas sem abrir mão do nosso próprio. Que ansiamos para que o outro se aproxime e nos transforme, mas sem mexer no status quo. Não abrimos mão, não cedemos, não permitimos que ambos os lados, de fato, se conectem. E, assim, perpetuamos um ciclo de frustração: ora tardamos em nos entregar; ora despejamos tudo sem saber se o outro comporta. Tampouco comportamos a nós mesmos.

E continuamos caminhando, deixando que tudo passe por entre os dedos, sem tocar ou permitir o toque. No oximoro da vida, nem oito nem oitenta.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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