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POR Manoel Veloso

Diferentão

Colunistas / 04.02.16

Todo mundo tem uma banda preferida; um autor para chamar de seu; um quadro que transmite emoções escondidas; uma fragrância tão sua que se confunde com seu próprio cheiro. Existe uma identificação de nós mesmos com algumas coisas que, por ora, acabam (também) nos representando e particularizando. E viram tatuagens, capas de facebook, decoração do quarto, anotações soltas no alto da agenda. É interessante ter esse apego, esse sentimento. Nesse mundo de esforços para a identidade própria, ter uma marca é objetivo de muitos. Ab initio, não é um problema ser diferentão.

A questão que se sobressai dessa corrida pela exclusividade é a necessidade de ser contra-cultura, underground, indie, descolado, descobridor de bandas, frequentador de inferninhos, boêmio do submundo. O mais diferentão dos diferentões. “Como assim você não conhece?”; “em que mundo você vive se não escuta essa música?”; “certeza que você gosta mesmo de arte?”; “como assim ama literatura se não leu ESSE autor?”; “mas esse filme é um clássico dos clássicos…”. E por aí vai. O clube dos diferentões exige o ápice: tem que ser o primeiro a conhecer a banda dinamarquesa que faz cover de kizomba de Cabo Verde em acordes de apresentações únicas nas óperas de Viena. Qualquer coisa que já tenha sido comentada, reproduzida em alguma multimédia popular não vale, não conta, não é boa, desinteressa, mata ou engorda.

Gostar de cultura pop desqualifica. Se você acompanha uma “diva”, não merece atenção. “O papo não vai pra frente, sabe? Somos muito diferentes, não gostamos das mesmas coisas”. Leitor de best-seller, necessariamente, tem alguns neurônios a menos ou é incapaz de discutir algum tema em mesa de bar. Fora a óbvia divisão entre o culto ao corpo e o culto à mente: ser fitness e ser intelectual, ao mesmo tempo, é impossível. São imiscíveis. Não se misturam e nunca vão se misturar.

Dessa competição nada se ganha. É uma masturbação de egos. Em verdade, perde-se muito. A oportunidade de conhecer outros trabalhos; de divertir-se; de conhecer outras pessoas; de ter experiências; de descobrir o novo; de redescobrir o velho. Na busca pela diferença, caímos na mesmice: tradicionalismo, intolerância, preconceito.

Depois de grupos de facebook de divulgação de bandas novas; ler cultura oriental; descobrir novas religiões; investigar estilistas; discutir o sexo dos anjos de bar em bar; reviver décadas (ser tê-las vivido); frequentar o bar sujo da última esquina do subúrbio em busca da cerveja mais gelada em copo americano; dos filmes mudos e entrecortados; descobri o verdadeiro diferentão. Esse sujeito, em verdade, é aquele que se permite. É aquele que escolhe romper a bolha para conhecer, sair por aí, descobrir e redescobrir-se. Pode até ter sua banda favorita de nome esquisito, mas não deixa de ir ao samba de domingo. Pode até não curtir o pagode, mas deixar de curtir a vida… jamais.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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