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POR Manoel Veloso

“Não é Ele”

Colunistas / 28.01.16

Entro na livraria e passeio pelas prateleiras. À procura d’Ele. Em pé, lendo um Caio Fernando Abreu ou Eric Hobsbawn, vai ajeitar os óculos descuidados que deslizarão pelo nariz. Estudou Ciências Sociais, Economia, Direito ou Filosofia. Vai discutir política com afinco esquerdista, mas vai compreender meus pensamentos centristas que flutuam entre a “esquerda caviar” e a “direita de massa”. Cinéfilo, faz cozinha de sobrevivência, recita poema, gosta de um café. Procuro entre as prateleiras, passeio pelos corredores. E não. Não. Não. Ao longe, alguém. Talvez. De perto, é mais baixo do que eu pensava. Não usa óculos e folheia Nicholas Sparks. Sem querer nossos olhos se encontram e percebo um leve estrabismo, apesar do azul piscina. Poderia nadar…mas desvio o olhar. E fujo.

“Não é Ele”, penso enquanto saio da Livraria. Melhor tentar no café da esquina.

Endireito a postura e entro na cafeteria. Ele vai estar de terno, folheando um jornal ou mergulhado nas folhas soltas de sua pasta enquanto coça a barba rente ou esfrega os dedos nervosos sobre a testa, com a expressão séria. Vai falar sobre a pressão no escritório, os clientes impacientes e os prazos cada vez mais curtos, mas vai levantar os olhos e esbanjar aquele sorriso enquanto fecha os olhos, também risonhos. O perfume madeirado vai embriagar. E vamos falar sobre tudo e, ao mesmo tempo, nada. Vai ter happy hour e vai me apresentar para os amigos que compartilham o escaninho, que vão perguntar como nos conhecemos e as meninas vão se deleitar com o encontro repentino em um café no meio do expediente. Enquanto explico como quero meu cappuccino de chocolate, passeio os olhos pelas mesas. Nenhum jornal. Poucos de terno (mas todos já casados há, pelo menos, 25 anos). Leitores da Veja. Desenhistas. Muitos ocupados demais digitando em seus celulares. Dois ou três estão mais perto de completarem o roteiro, mesmo sem blazer ou usando armações grandes demais para o rosto ou usando uma combinação extravagante. Aposto em um, sento próximo com a desculpa de que o pão de queijo está muito quente para andar muito tempo com ele na mão. Sem querer trocamos algumas palavras, mas não são satisfatórias. Nem termino o pão de queijo.

“Não é Ele”, penso frustrado. E vou embora. Melhor ir para casa.

Subo para o ônibus, procuro um local vazio e afastado. Não quero companhia. Coloco os fones, olho pela janela e repasso meu roteiro perfeito. Respiro fundo. Na comédia romântica que escrevi para mim, permaneço sendo o protagonista sem sal e sem emoção, que não desenvolve a história. Onde está o encontro repentino, aquela troca de olhares, sorrisos tortos e um único encontro de dedos capaz de arrepiar até a nuca? Cadê o pedido de namoro no Arpoador, depois de uma caminhada desde o Posto 10, em que não sabíamos se dávamos as mãos ou se colocávamos nos bolsos da frente? Onde está aquela visita antes de uma temida prova, com um pote de sorvete e muito cafuné pra dar para diminuir a tensão? E o pé morno capaz de esquentar meus dedos gelados nas noites de Agosto? Não quero usar meias para dormir no inverno. Não quero comer um pote de sorvete de chocolate meio amargo enquanto revejo o final de How I Met Your Mother para burlar a última revisão antes da prova. Não quero andar pela orla para espairecer a cabeça tendo entre meus dedos um último cigarro. Não quero…apenas, não quero.

Tão absorto em meus pensamentos mal percebo que ele subira para o ônibus. Acenou com a mão em minha direção. Retribui com a cabeça, mas sem realmente prestar atenção nele. Sentou ao meu lado. Fazíamos duas matérias juntos no período passado. Sei seu nome, mas nada além. Trocávamos apenas cumprimentos, nada mais. Insistiu em alguns assuntos: o dia está quente; também estava pelo Leblon, no dentista; livraria é um bom lugar; não conheço muito Caio Fernando Abreu, mas leio bastante Martha Medeiros; faculdade, faculdade, faculdade…

Respondia por educação, mesmo. Cabeça bem cheia, muitas luzes na rua. E ônibus tem efeito quase hipnótico, ainda mais com música ao fundo. Perguntou o que eu ouvia. Compartilhei o fone. Strokes, depois Ellie Goulding, depois Killers, depois Adam Lambert. Não demorou muito, deixou o fone, despediu-se. Até a próxima. Até. E foi.

Semanas depois, reencontro na faculdade. Subindo as escadas, encontro ele. Apressado, de óculos escuros. Mais uma vez, trocamos cumprimentos tímidos. Subi mais três degraus depois de dizer “oi”. Parei e olhei para baixo, só para dar uma última olhada. Com passos mais lentos, ele também olhou para cima. Por cima dos seus óculos, encontrei seus olhos. Ele deu um tchauzinho tímido. Do alto da escada, sorri. E continuamos nossos caminhos.

“Gostei dos óculos”, pensei. E continuei subindo.

Não nos encontramos mais naquele dia. Nem no seguinte.

Mas, algum tempo depois, esbarros nos corredores. Eu na sua frente na fila da cantina. Ou ele na minha frente. Dividimos uma fotocópia, um trabalho em dupla. Um relatório da aula que eu perdi. Uma foto do meu caderno na data que ele faltou para voltar ao dentista. Alguns e-mails com dúvidas, que viraram mensagens. Peguei emprestado seu preferido da Martha Medeiros depois de alguma insistência. Emprestei “Morangos Mofados”, do Caio Fernando Abreu. Depois que devolveu, prometeu conhecer mais, assim como eu acabei comprando uns três da escritora dele.

“Afinal, ele tem bom gosto”, pensei.

Nas reuniões do Centro Acadêmico eu silenciava, enquanto eu o via do outro lado da sala reclamando da inconstância da esquerda e do extremismo da direita.

“Parece que ele não tem grandes convicções políticas”, pensei.

Por acaso eu andava com uns DVDs do Hitchcock, que ele não conhecia. Deixei dois com ele, para ver se gostava. Na tarde seguinte já estava devolvendo e pedindo novas indicações.

“Vou te apresentar alguns filmes por diretor”, eu disse.

A cantina estava cheia. Por acaso nos encontramos no final da fila. Vamos comer do outro lado da rua? E fomos. Eu pedi meu café. E ele, um chocolate frio. Comi meu pão de queijo; e ele, um salgado qualquer. Eu estava com um livro da Cecília Meireles. Não conhecia. Folheou, escolheu um poema qualquer, leu e, logo depois, disse que aquilo lhe lembrava uma música. Cantou o refrão, bem desafinado. Pediu desculpas pela falta de ritmo. Rimos e voltamos para a aula.

Semanas depois, estávamos de novo em aula. Dessa vez ele usava um crachá. Recém-contratado, estágio em uma Secretaria do Estado. Não era muito, mas era divertido. E tinha chocolate quente à vontade. Deixa esfriando para tomá-lo frio enquanto roda pelo prédio com alguma papelada. Nunca reclamou do trabalho, ou da pressão da supervisora, ou do valor da bolsa. Ao contrário: fez amigos e ganhou ingressos para aquela peça estranha num teatro esquecido do Centro, e sorria. Sorria muito. Algumas vezes escandaloso, jogando o pescoço para trás. Outras, bem contido. Quase sempre, de cantinho.

Um dia combinamos de almoçar juntos, em seu intervalo de almoço, antes das minhas aulas. Fomos andando por uma praça do Centro, em busca de um self-service. Eu, com as mãos no bolso; ele, com os braços soltos, que faziam desenhos no ar enquanto conversávamos alguma coisa.

De repente, ele parou. Olhou nos meus olhos. Falou que me amava. Que aquele tempo tinha sido o melhor já vivido. E que a certeza que ele tinha era que ele queria estar comigo. E perguntou, com aquele sorriso no canto da boca.

“Não é Ele”, eu pensei. “Não é o roteiro perfeito que procuro. Não é a comédia romântica hollywoodiana. É ele. E é isso que importa”.

“Sim”.

E fim.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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