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POR Manoel Veloso

Geração Desesperada

Colunistas / 22.01.16

Quero. E por querer, tem que receber na hora. Porque as coisas funcionam assim: se eu quero, necessariamente eu posso e, simplesmente por isso, tenho que ter em mãos. Com máxima urgência. Não vou receber agora? Não quero mais. Não me interessa mais.

Somos uma geração desesperada. Ansiosa. Impaciente. É incrível como não sabemos lidar com um simples não. Acostumados com sequenciais “sim”, de ver a prateleira em nossas mãos, com a escola empurrando conteúdos em nossa cabeça, tornamo-nos passivos demais diante do mundo. E fizemos do nosso umbigo o nosso próprio mundo.

Na esperança de que todos em volta também o enxerguem como exclusivamente nosso e, por isso, devendo corresponder aos nossos anseios. E assim criamos 7 bilhões de individualistas, ávidos por consumo, respostas e realizações, mas demasiado preguiçosos e impacientes diante da espera, da luta, do combate, dos estudos, do tempo.

Vi amigos desesperados diante de situações simples. Um voo atrasado e um pedido de espera da administração do aeroporto causaram dores, desentendimentos e (pasmem) uma amizade destruída. Uma demora na resposta de um e-mail: a desistência de uma pós-graduação fora. Uma dificuldade em encontrar um quarto privado com banheiro para alugar: hospedagem em hotel. Justificativas? “Cansei de esperar”; “não tem porque não aparecer a informação logo! Esse povo não trabalha?”; “qual o problema em responder logo?”. E por aí vão os porquês das atitudes.

Saí de casa relativamente cedo. E, por causa disso, vi essa bolha explodir. Vi-me refém de todos esses momentos de impaciência e desinteligência emocional. Fiquei abalado por um ônibus perdido ao ponto de chorar. Depois me vi desesperado pela falta de resposta da burocrática universidade pública. Refiz ofícios aos berros sem entender o silêncio de alguns. Gritei com máquinas de cartão de crédito fora de funcionamento. E, aos poucos, fui me perguntando se tudo aquilo era realmente necessário. Se essa desproporção entre causa e efeito continuariam. Aprendi a segurar mais as lágrimas e a formar discursos; a ser mais polido e, ao mesmo tempo, enérgico; a respeitar as diferenças; a compreender a necessidade da passagem do tempo; o problema de um “sim” inoportuno; e a importância de um “não” (mais que) pedagógico.

Não me vanglorio por esses avanços. Amadurecer é um processo e cada um viverá o seu. Torço para que isso aconteça, de fato, com todos. Está feita, pois, a minha resolução para 2016 em uma única palavra: resiliência. Aos que não sabem: é a “capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças”. Quero cada vez mais estar preparado para as adversidades da vida, dos desencontros, da dor.

Encontrar a esperança em meio a guerra e encontrar a paz no barulho ensurdecedor. E experienciar mais e mais. Ter mais histórias para contar. Em suma: viver e aprender com isso. Torço, por fim, que mais pessoas percebam que, diante de um voo atrasado e do silêncio diante da situação da aeronave, aprendam a esperar. E, com parcimônia, saibam aguardar informações (ou buscá-las). Afinal, não vale a pena perder amigos, descabelar-se ou (até) passar mal por conta de um atraso de 30 minutos.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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Uma resposta para “Geração Desesperada”

  1. Que texto maravilhoso, constantemente me pego pensando exatamente sobre isso, o quão incongruente são minhas reações a coisas que às vezes nem tem tanta importância, ou como um “não” me deixa possesso, mesmo quando eu sei que ele era necessário naquele momento. Trabalho o tempo inteiro a fim de evitar sobrecargas emocionais desnecessárias e a aceitar, ou ao menos entender, os contratempos da vida cotidiana, é uma tarefa difícil.

    P.S. Curioso descobrir no fim do texto que ele foi escrito por um aluno da FND, me identifiquei ainda mais, o que esperar de uma pessoa que estuda na mesma faculdade de Clarice Lispector? <3

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