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POR Isabel Fonseca

Vai dar tudo certo

Colunistas / 14.01.16

“Para de problematizar tudo, é só um açaí!” bufou meu amigo enquanto eu demorava verdadeiros 15 minutos para decidir meu pedido. Eita, de-ci-dir. Apanho demais para esse verbo. Nunca sei como conjugar. Toda vez que me deparo com situações onde tenho que escolher o que quer que seja, meu corpo se vê invadido por sensações de nervosismo e desespero que não estão escritas. Apenas esbanjo um sorrisinho amarelo e meus olhos se danam a gritar: “Por favor, tenham paciência!”. Eu pareço Atlas segurando o mundo quando sou obrigada a eleger alguma coisa. Pareço o presidente dos EUA. Pareço Sofia escolhendo entre os dois filhos. Atribuo um peso gigantesco as minhas decisões e esqueço que a gente pode se reinventar.

Recentemente, enquanto atendia a uma indicação cinematográfica, levei vários tapas na cara. Há tempos me recomendaram um filme que tem por título original Beginners. A trama conta (também) a história de um senhorzinho chamado Hal Fields, que aos 75 anos – sim, aos setenta e cinco anos – se assume gay. Em uma das minhas cenas favoritas (me arrancou gargalhadas sinceras) ele liga para o filho, diz que foi ao Act Bar e pergunta que tipo de música tocava no lugar, tentando imitar a melodia de um jeito deveras engraçado. Quando o rapaz responde que é House Music, ele anota em um caderninho demonstrando um empenho inusitado, o que eu achei encantador. Essa situação me deixou bastante maravilhada e reflexiva por dias.

Ninguém precisa bater o martelo sobre nada na vida. Claro que é imprescindível escolher um caminho e acreditar nele. Mas se porventura nada disso mais te fizer sentir vivo e abençoado, bom, eu acho que você pode chutar o balde. Acenar um tchau. Arriscar um ‘Au revoir’, por que não? Cante ‘N Sync com fervor. Vai  e muda essa rota. O passado provoca mesmo uma sensação de acolhimento, segurança. E por mais desagradável que ele tenha sido, perto de um futuro tomado de imprecisões e inseguranças, é natural que pareça um conto de fadas. Mas não se engane. O medo do inexplorado também é involuntário. Essa chuva de percepções pode te deixar desorientado. E é aí que você precisa trabalhar a lembrancinha que as entidades deixaram esquecida lá no fundo do saco de atributos, quando resolveram nos criar: Paciência. Paciência consigo mesmo. Tentar se ouvir. Tentar se entender. E descobrir que nenhuma sentença que você resolva acatar é condenável. Principalmente se ela vem para te preencher.

“Ah, mas é muito fácil falar.” Verdade. A teoria é uma ideia bonita, organizada. Os sacríficos ficam bem escondidos. Quase um antônimo da prática. Mas eu não tenho o direito de te dizer “Fica! Fica na sua vida medíocre! Fica no seu trabalho medíocre! Na sua faculdade medíocre! No seu relacionamento medíocre!” vendo sua ânsia por uma mudança. Por uma felicidade ainda abstrata, que quando se concretizar, vai te fazer muito bem. Não posso ser cúmplice enquanto um lado tão extraordinário é sufocado. Mas não vai ser fácil. O desespero vai bater inúmeras vezes. Muitos questionamentos. Vontade de voltar atrás. Uma surra de obstáculos. Pessoas enchendo a boca para falar maldades disfarçadas do que elas intitulam de verdades. Tudo consequência das suas decisões. Tudo suportável, aguente firme. Você vai se tornar mais seletivo, aprendendo o que deve absorver. Vai tirar forças das palavras motivacionais que mais parecerão cafunés. De gente que torce pela sua alegria genuína. E até daqueles que podem não compreender o seu caminho, mas te respeitam.

Desejo que esse texto seja um abraço muito apertado em todo mundo. Mas excepcionalmente em quem se priva de viver a vida como quer por ínfimos motivos, em quem luta para se desprender das amarras, em quem tem medo e ainda não achou o caminho, nos que buscam honrar suas decisões, nos indecisos (Estou pensando em formar um grupo de terapia, me manda seu número por mensagem no Facebook) ou em quem está apenas precisando de um abraço forte. Bem seguro, bem reconfortante. Daqueles que a gente se perde, as emoções se fundem e que quando ele acaba, os dois se sentem mais leves e livres para seguir com a vida. Eu queria que esse texto fosse traduzido inteiramente em um “VAI DAR TUDO CERTO!” Mas não a frase superficial e clichê que a gente solta quase que automaticamente em situações caóticas. É a que traz como mensagem subliminar o seguinte: Você não está fadado a nada. As circunstâncias são instáveis e sempre revelam múltiplas perspectivas. Exista da melhor forma que você puder. Exista de um jeito que você se sinta perfeitamente engrenado com o universo. O senhorzinho do começo do texto viveu a plenitude da sua vida aos 75 anos. Então, sim, vai dar tudo certo.

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Isabel Alice, 20 anos. Não sabe se definir, não sabe o que quer da vida, mas tem a petulância de dizer que você não vai encontrar um ser humano mais distraído, ansioso e lunático que ela.

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