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POR Bruno Pereira

Estes dois

Colunistas / 11.01.16

Para ler ao som de “Nosso estranho amor”,

de Caetano Veloso.

 

Para Chico

De repente, numa tarde chuvosa e quente, rápido como o raio que descaia do céu enegrecido e, contrastando o superno, iluminava o terrestre, Chico partiu. No primeiro momento, abalado, eu não tive outro gesto além de chorar. No meio da chuva, da lama, dos raios e trovões, tempestuosa Iansã, Chico continuava firme em seus passos, e eu frágil em meu pranto. Da porta de casa, pelo negror do tempo, quase não via mais Chico naquela estrada onde o que predominava não era mais a lama, a água, o lixo varrido pelo vento, mas a saudade, mas uma história – ou, de tão venusta, estória – vivida.  Pensei em gritar, mas Chico estava longe demais para escutar; o furor das águas do céu abafava meu grito. Impulsionado pela paixão, do patior e pathos, corri por aquele caminho sujo, desasseado, enodoado, o vento forte empurrava-me para trás e contra mim, eu gritava, mas o apupo do céu era maior, eu corria, mas a lama me prendia, eu chorava, e quanto mais fazia, mais chovia. Pobre, imundo, desacreditado, nada, arrastava-me por aquele caminho tão sebento que eu já o era.

No segundo momento, gretado, chorava às vezes, quase sempre, sentava à escrivaninha e tecia cartas e mais cartas (des)apaixonadas, nunca endereçadas. Na gaveta, milhões de bilhetes, cartões, até presentes para Chico: de natal, de aniversário, do nosso dia. Chico nunca veio buscá-los e eu, por sua vez, nunca os enviei. Não sabia onde morava, se morava; não sabia se enamorava outrem, se enamorava; não sabia se me sentia, mas pressentia. Os cantos da casa, agora quieta e em silêncio, sem aquela voz rouca e incessante, guardavam e, acima de tudo, preservavam a presença daquele homem (in)perfeito. Na fonte da varanda, deixava minhas lágrimas se misturarem à água doce descendo sobre as pequeninas pedras, como cachoeira: Oxum levando o amor para trazê-lo de volta.

No terceiro momento, sôfrego, esperava Chico todos os dias, ao pôr do sol, sentado na varanda. Oxalá cintilava sua positividade. Ainda assim, nada. Chico partiu há exatos cinquenta anos. Nunca mais eu fui o mesmo. Nunca mais pude olhar aqueles olhos que se debruçavam intensa e verdadeiramente somente sobre meus. Nunca mais senti aquele abraço de menino carente. Nunca mais toquei aqueles lábios trêmulos como da primeira vez. Nunca mais ri de insensatezes que eram apenas nossas. Chico partiu. Mais um dia de nossas vidas, menos um dia de nós: descompasso. Chico nunca soube o quanto o amei e o quanto eu daria tudo e a minha totalidade para que ele estivesse no aqui-e-agora. Chico, por que insiste em partir se sabe que seu lugar é aqui? Chico não respondeu e não permitiu viver o nosso amor e.

 

Para Caio

Olha, querido Caio, não sei bem como vou escrever tudo isso, sabe que não sou bom com palavras, mas começo assim: um dia eu acordei um tanto túrbido, você sabe da minha intempestividade, e tomei decisões que julgava serem boas para mim, até tentei pensar em você, e pensei, juro, mas, no final, acho que não pensei em nós, nossa, quanta vírgula, você acha que eu estou exagerando nas vírgulas, Caio? Não é exatamente isso que eu gostaria de falar, eu quero dizer, na verdade, que eu amei você, sim, de verdade, com toda força, com toda vontade e desejo, com toda a alma e o que de mais interno e intenso eu pude dar, e, olha, eu continuo amando, mas eu não sei bem lidar com isso. Caio, olha que coisa louca, eu não sei lidar com o amor.  Eu sei que você tentaria me ensinar e com calma seguraria minha mão, mas eu tenho tanto medo, tenho sim, no presente, agora, tenho medo de tudo, do ontem morto, do hoje sujo, do amanhã imprevisível, do que quero, do que não quero, de você, de mim e, pasme, tenho medo de nós, nós mesmo, Caio, esse nós que você pensa existir, pensa não, existe, mas que você almeja, e eu também almejo, confesso, mas tenho esse medo, você compreende? Não, eu sei que você não compreende, e não compreendeu todas as vezes que eu fui embora, para longe, tentando te distanciar e afastar com o golpe mais violento que eu pudesse desferir contra você, e te deixava triste e choroso, acredite, meu rei, eu também ficava triste, eu também chorava todas as noites de saudade de ti, mas por medo, medo do nosso amor, desse sentimento tão avassalador que me tirava dos eixos, dos trilhos, do caminho, do meu estado são, eu fugia, e por fugir disso, eu me esquivava de você, mas, no fundo, era tudo amor, é tudo amor. Não sei o porquê escrevo tudo isso se não vou te enviar, tenho milhões de cartas aqui guardadas, todas nossas, todas piegas, todas eu & você, mas nunca tive coragem de te endereçar. Vezenquando eu chegava bem perto de sua casa, escondia-me atrás de uma árvore, esperava você aparecer para te admirar, e depois partia, como se renovado do seu amor. Faz muito tempo, Caio, muito tempo que te deixei, mas você não saiu um dia sequer do meu pensamento e coração. Busquei outros corpos, cheiros e amores, mas nenhum deles chegou perto de mim buscando o que de melhor eu tinha, o que de mais essencial e bonito um ser humano possa ser constituído. Perdoa-me, Caio, perdoa-me por todas as lágrimas, por todas as renúncias, por todas as fugas, perdoa-me de mim, às vezes eu me atrapalho mesmo, eu te amo, de verdade, ainda quero me casar com você, ter dois filhos, um gato e um cachorro…

 

Nota do autor

Caio e Chico. Dois homens. Dois amores. Dois eternos. Dois. Um. Uma vida fragilizada. Descompasso do mundo. Amores vigentes. Sentimentos profundos. Saudade. Lembrança. Morangos. Mofados. Girassol, sem sol. Lua. Cheia. (i)Nova. Minguante. Crescente. Ascender ao amor, novamente. Viver é ir contra o que vive. Viver, portanto, é amar. Amar e re-amar. Dois em um. Dois é um. Dois: estes.

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Chamo-me Bruno Pereira, meus amigos me chamam de Preto, assino Bruno P.; carioca; virgem com ascendente em câncer e lua em libra (socorro); tenho 26 anos (variável com o dia e o clima); beletrista pela UFRJ; professor; pós-graduando em Literatura; ator amador no palco da vida; penso bastante, falo às vezes, mas anoto tudo; escrevedor, menos escritor.

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