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POR Manoel Veloso

Falta seu tempero

Colunistas / 03.12.15

Mais uma vez passei mais tempo que o necessário picotando a cebola em pedaços ínfimos pra você não sentir o gosto tão presente na comida. Merda. Os olhos estão cheios de lágrimas salgadas, numa tentativa de livrar dos olhos o ardor da cebola; e, ao mesmo tempo, livrar da minha alma esse incômodo dolorido da falta que você faz.

Eu queria parar de comer, sabe (para um bom taurino, falo isso com muito pesar – porque se tem uma coisa que eu gosto é de comida). Porque tudo que eu aprendi na cozinha foi com você! Mas tudo tá tão insosso. Aquele toque especial no strognoff, desapareceu. Aquela mistureba engraçada que jogamos no forno um dia e virou o “prato da casa” – que oferecemos a todas as visitas que iam à nossa casa bater um papo – não consigo mais acertar o ponto. Abandonei até aquela mania tosca de entulhar as prateleiras de todos os cantos da casa com vidros secos de água mineral importada e das cervejas de rótulos diferentes.

Então estar nesse (nosso) espaço dói. Cozinhar dói. Sentar à mesa dói. Comer sozinho, idem. Nessa rotina no singular, sua companhia faz uma falta danada. Faz uma falta danada dar um grito do fogão pra você trazer o coentro da despensa. Faz uma falta danada ter quem mexa nas outras panelas enquanto eu agilizo o molho – sem mexer na minha receita, porque você sabe muito bem que odeio que metam o dedo na minha comida. Faz uma falta danada ter com quem compartilhar o avental. Até de fazer aqueles longos supermercados, que eu sempre esquecia a batata-palha e você trazia de surpresa numa tarde qualquer voltando do trabalho. Você sabe que eu não suporto o cheiro de supermercado e não consigo ficar tanto tempo dentro. E por isso sempre esquecia alguma coisa e havia três itens a menos na lista de compras. Fazia parte da rotina. Da nossa rotina. Era plural.

Desaprendi a escolher o vinho certo. Deixei de ver as uvas e voltei a olhar os preços. Ignoro os rótulos numa tentativa infantil de não imaginar você explicando o porquê das cores e da representatividade de uma tipografia certeira. Tenho (mais que) frequentemente passado da segunda taça. E tenho acordado com aquela dor de cabeça que você sempre anunciava por não intercalar a próxima remessa com uns poucos goles de água.

Nesse nosso amorzinho metido a gourmet, descobrimos sabores, harmonizações e boas coisas na televisão. Assistimos filmes, comentamos a novela, fofocávamos sobre a discussão do vizinho berrante. Até escolhemos o nome dos nossos filhos. Agora mal ligo a televisão, engulo séries para não ter que comentar com ninguém sobre um próximo episódio e evito os corredores barulhentos do prédio. Sobre a comida? Tenho encarado mais miojos incolores que antes de te conhecer. Acho melhor assim. Não tem graça montar um prato com mil iguarias se vai sempre estar faltando alguma coisa. Posso até insistir em não dizer o que é, mas sei muito bem o que falta. Falta aquele tempero. Falta o SEU tempero. Falta você aqui.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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