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POR Manoel Veloso

Positivo

Colunistas / 19.11.15

Hoje não falo dos ataques entre França, Síria e ISIS; ou a morte do Rio Doce e as consequências ainda imensuráveis ao meio ambiente em consequência do crime ambiental cometido pela Vale. Falo, pois, da declaração de Charlie Sheen sobre a sua condição de portador do vírus HIV.

O ator de Hollywood (inclusive um dos mais bem pagos), que protagonizou uma das séries mais vistas pelos brasileiros – Two and a Half Man -, e ícone heterossexual (inclusive com imagem associada à virilidade, masculinidade, hombridade) foi à televisão norte-americana revelar, em meio a um talk show de uma emissora, o que os tabloides britânicos já anunciavam (porém sem expor a identidade do artista): a sua “recente” contaminação pelo vírus HIV. O ator afirmou conviver com o vírus há, pelo menos, quatro anos e que não sabe ao certo como foi contaminado, mas que o seu comportamento “errático” – de relações sexuais desprotegidas e consumo de drogas ilícitas – pode ter sido a grande causa da contaminação. Ademais, o ator afirmou que fora extorquido por várias pessoas, inclusive pessoas próximas a ele, para não revelar a condição de soropositivo. Este fora, também, um dos grandes motivos para a revelação na grande mídia – livrar-se das extorsões.

Charlie Sheen afirmou, também, que depois do diagnóstico tomou todas as precauções necessárias para não transmitir o vírus. Segundo o próprio, apenas duas pessoas insistiram para que as relações sexuais fossem desprotegidas. E que, ainda assim, o ator teria dado o suporte médico para o teste de contaminação e demais consequências em caso de resultado positivo. Versão prontamente contestada por uma de suas companheiras, a ex-atriz pornô Bree Olson, que disse ter tido relações sexuais com Charlie sem efetiva proteção à DSTs.

O que é verdade ou não nessa entrevista, não se sabe ao certo. Porém o diagnóstico é verídico. O HIV é o vírus provocador da AIDS, doença sexualmente transmissível que ataca o sistema imunológico, deixando o corpo à mercê de outras contaminações. Em decorrência da imunodeficiência, o soropositivo fica facilmente suscetível de infecções, que, ainda que simples, podem ser fatais. Por muito tempo a doença foi associada a grupos de risco, como o segmento LGBT. Desde a sua descoberta, a AIDS foi veiculada como fruto de comportamento promíscuo e que, por isso, estava intimamente relacionada a pessoas não-hétero. Por muito tempo ouviu-se por ai que “era doença de viado”. E vendeu-se a imagem da imunidade heterossexual, apenas pela orientação sexual. No mesmo sentido caminharam outras instituições, como o Exército. No caso brasileiro, nos anos 90 houve um boom de casos de contaminação pelo HIV dentro dos quartéis. De prontidão foi divulgado que isso se devia aos homossexuais dentro da instituição, da pederastia e outros sinônimos pejorativos associados.

O que foi desmentido pouco depois por pesquisas realizadas: a verdade é que, desde então, o número de casos de contaminação entre pessoas heterossexuais cresceu exponencialmente – inclusive dentro das forças armadas. E que esse número é espantoso entre os jovens. Por outro lado, o contágio por pessoas LGBT decresceu em maior proporção. Acho que o jogo virou, não é mesmo? A relação hétero e o homem viril nunca estiveram imunes ao vírus. A imagem distorcida da doença e o preconceito por trás da associação entre AIDS e LGBTs que permeia o imaginário da população continuam reproduzindo números de infetados. É preciso ter em mente que orientação sexual nunca foi (e tampouco será) sinônimo de proteção ou de imunidade diante de DSTs.

O maior remédio contra o HIV é a prevenção, isso é inquestionável. E como é feita a prevenção, idem. A camisinha é o meio mais efetivo contra o contágio, ainda que medicamentos estejam com resultados positivos, como o PrEP/Truvada. Ademais, é muito simples ter acesso a esses métodos. A camisinha tem distribuição livre nos postos de saúde estaduais, além de estar à venda em muitos estabelecimentos. Não tem desculpa para não usar chuteira antes de entrar em campo. Quanto aos medicamentos, o estado brasileiro pretende já em 2016 incluir o Truvada na política pública de saúde do país. Ou seja, o medicamento seria distribuído nos postos de saúde. O Brasil passará a ser o primeiro país do mundo a ter o medicamento com distribuição institucionalizada no mundo.

Tão importante quanto à prevenção do contágio é ter em mente que a AIDS não é exclusiva de A ou B, tampouco espera o momento certo. Pode ser na primeira relação sexual, pode ser aos 50 anos – como Charlie Sheen. Devemos encarar esse caso como (mais um) alerta. A ignorância de muitos faz com que vivamos uma verdadeira pandemia. Não é falta de informação, não é desconhecimento. É descuido. É preconceito.

Fica a mensagem (aos berros, em alto e bom som, letras garrafais e negritadas): hétero, gay, bi, trans, travesti, pan…não importa. Previna-se. Sempre.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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Uma resposta para “Positivo”

  1. As gerações mais novas, especialmente no Brasil,talvez por não terem vivido o boom da sua descoberta (e com a contaminação de muita gente famosa), age como se ela não existisse…E o resultado está aí: números alarmantes de contaminados, especialmente entre os mais jovens e héteros. Agem como se a AIDS não fosse uma realidade. E a cultura machista, da vida sexual dupla, tripla, e de que é doença de homossexual favorece ainda mais, infelizmente, esta realidade. Muito triste.

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