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POR Luis Paulo P. Ribeiro

Sobre a negritude

Colunas / 17.11.15

Bem, me fora feito o desafio de desabafar sobre de algum (uns) infeliz (es) momento (s) de racismo que senti na pele. Logicamente já passei por diversas dessas situações nas quais o racismo é evidente, tais quais ser chamado de macaco, pretinho feio, picolé de feijão, essa infinidade de péssimos adjetivos que pessoas odiosas se referem a nós, pessoas pretas.

Ao refletir sobre essas experiências para cumprir o propósito do convite, cheguei à conclusão de que apenas explicitar os casos evidentes e grotescos de racismo não me contemplariam, e não cumpririam o desafio de que nós pretxs temos passado nos últimos tempos que é a pior forma de preconceito existente: racismo velado.

É essa forma de racismo que predomina na sociedade, que nos invisibiliza, nos objetifica e nos vende a qualquer preço, nos coloca de baixo de sacos plásticos e a sete palmos quase todos os dias. A forma velada é tão problemática de detecção e combate, que muitas pessoas não negras se sentem “confortáveis” em dizer a uma pessoa negra se determinada situação é ou não racista. Já que o ódio não é extremamente expresso, trata-se de uma forma subjetiva na qual quem tem mais força de fala tem o poder ressignificar de acordo com o seu pensar qual o conceito de opressão se utiliza e ainda em que moderação. Transgredindo um dos princípios ensinados por Paulo Freire, em seu livro “Pedagogia do Oprimido”, no qual ele nos diz que no irromper com o sistema opressor não se deve falar através do oprimido, nem pelo oprimido, mas sim com o oprimido.

Pois bem, vamos ao meu relato pessoal:

Há exatamente três meses, eu ainda estava num escritório de advocacia no bairro do Vinhais, e todos os dias, como de costume, no final do expediente ia para o ponto de ônibus para ir pra casa. Acontece que nessa rotina eu sempre encontrava algumas pessoas repetidamente, e como eu passei quase dois anos nesse estágio, algumas pessoas eu já conhecia e até desenvolvia algumas prosas. Uma dessas pessoas era a dona Bela, que sempre levava seu neto excepcional à escola. Sempre conversávamos sobre coisas do dia-a-dia, até que o assunto mais debatido entre nós era a paixão desse rapaz que vou chamar de Saul por uma moça que morava em São Paulo.

Nos dias seguintes apareceu uma nova figura nesse ponto de ônibus nas minhas idas pra casa. Tratava-se de uma senhora de aproximadamente 40 anos, a priori bem simpática, que já era moradora do bairro há muitos anos também. Tal qual logo nossas conversas iam avançando ao longo dos dias a paixão de Saul foi supracitada, e logo essa nova senhora que vou chamar de Cassandra começou a investigar o perfil da tal moça pela qual o Saul estava apaixonado, e logo veio à tona : era uma moça beirando os 30 anos, já traçando o ideal de bem sucesso na carreira em que havia escolhido pra si, branca, e pela discrição também se enquadrava nos padrões hegemônicos de beleza, ou seja, magra alta, branca, cabelos lisos.

Quando veio o questionamento das chances do Saul com essa moça paulista, a dona Cassandra logo disparou: – Bem, tem vários problemas que podem impedir esse relacionamento de vocês, mas ainda bens que tu és BRANQUINHO, isso facilita muito as coisas! Disse isso entre risos tão naturais quanto os sons de balas que escuto atravessar paredes e peitos aqui na favela em que moro. Logo em seguida, olhou-me com olhos que pareciam conter uma espécie de pena que eu não conseguia entender de onde vinha e por que vinha de onde vinha…

Fiquei imóvel, mergulhado numa espécie de indignação que jamais tinha sentido, passei noites a fio a pensar sobre o significado de toda aquela situação, de como poderia me posicionar…

O que aquela situação me fez enxergar foi o quanto a nós negrxs ainda é negado o amor, esse amor a dois, essa coisa que todos conhecem no meio social. A facilidade da qual Cassandra falou por Saul ser branco para conquistar sua amada é justamente a dificuldade que pessoas negras têm para serem assumidamente amadas pelos demais sujeitos. O que ainda nos resta é apenas o papel de negros e negras sensuais, de corpos “tentadores” que remetem ao prazer e somente ao deleite do prazer, por que quando grande parte das pessoas pensam em relacionamentos sérios e duradouros quase nunca se imaginam do lado de uma pessoa negra.

Quando essa realidade me veio, passei muito tempo em crise. Percebi meu corpo murcho, sem grande forma e proporção e senti que nem a esse papel subalterno eu teria acesso. Por questões de saúde, entrei na academia para prática de musculação, meu corpo ganhou forma e logo em seguida comecei a ser procurado, mas todos os convites ficavam explícitos que eram apenas para sexo e nada mais. O pior foi ter que conviver com gente achando que esses convites eram motivo de elevação da minha autoestima.

Decidi negar a todos os convites. Não que eu esteja esperando a pessoa encantada pra eu me relacionar. Mas faço isso pensando nas tantas outras pessoas negras que passam por esse processo de hiperssexualização e negação do amor. Resistir nunca é fácil, mas quando se tem solidariedade social é isso que se faz, é o que nos resta.

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Luis Paulo P. Ribeiro é estudante de Direito da UFMA, integrante do Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular NAJUP NEGRO COSME. É preto! Preto em primeira pessoa e primeiro lugar!

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