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POR Dacia Moreira

Nossos motivos para lutar ainda são os mesmos

Colunas / 17.11.15

Cotidianamente somos questionados, nós, o Fórum de Juventude Negra do Maranhão, sobre o que faz com que semanalmente nos reunamos, estudemos e fortaleçamos a luta do povo negro. A resposta poderia ter um caminho simples. Porém, todos os esforços do Estado brasileiro em mascarar como, verdadeiramente, se desenrolam as relações etnicorraciais no seio da sociedade brasileira torna sempre longo o caminho percorrido para que se concretize uma resposta. Só a dificuldade que o leitor está sentindo em compreender que pano de fundo sustenta as opiniões aqui inicialmente apresentadas mostra como a ideologia do racismo permeia a vida social brasileira de forma densa e infelizmente visível!

Temos observado os acontecimentos que giram em torno da causa do povo negro e podemos fazer um balanço rápido: RACISMO EXISTE! RACISMO ADOECE! RACISMO MATA! No entanto, foram e ainda são realizadas muitas inversões de realidade que tentam, a todo custo, calar o grito por justiça que ecoa da garganta da população pobre e negra desse país, tais como a insistência de pensar que exista harmonia entre os grupos étnicos, convencionalmente chamada de “democracia racial” e que tem por base nomes importantes do pensamento acadêmico nacional – como o idolatrado Gilberto Freyre – ou ainda o extremo oposto em que mesmo não sendo admitida a crença de sejamos todos, os afrodescendentes, observados como ”sub-raça” é esse o tratamento que recebemos. Sendo oportuno citar um exemplo simples: os serviços públicos básicos, assim como saúde e educação, estes carecem incontestavelmente de séria discussão no que diz respeito a sua qualidade, humanização e respeito a pessoa humana.

Insistindo ainda no percurso de buscar uma resposta que seja compreensível, torna-se necessário citar que o quadro de exclusão social imposto aos africanos quando aqui são introduzidos no momento em que o capitalismo mercantil se expandia, nos séculos XV e XVI, está diretamente ligado à constatação da existência do racismo como uma das estruturas sob as quais se organiza a sociedade brasileira mesmo nos dias de hoje. Ainda pensando as inversões do discurso racial no país, muitos tentam acreditar que o, assim considerado, marco histórico do 13 de Maio de 1888 realizou a operação mágica de extinguir o racismo e a partir dali estaríamos todos irmanados na construção de um país republicano, democrático e capitalismo em que não há vez para tais discriminações – ledo engano.

Adentrando sua fase republicana e industrializante sem superar as estruturas das fases anteriores, entre elas o preconceito racial, a realidade de ausência de direitos, o cotidiano de violência imposto a população pobre, os serviços públicos oferecidos de maneira precária entre muitas outras consequências são apresentados como motivos para a luta dos jovens negros brasileiros. Em pleno século XXI, ainda são os mesmos dos heróis e heroínas negros e negras do nosso passado. Não só na cidade, mas também no campo, essas contradições da ordem capitalista e o passado escravagista do Brasil se impõem quando observamos a lutas das comunidades quilombolas pela titulação de suas terras em processos desrespeitosos que se arrastam por anos, enquanto o poder financeiro e político das elites tenta se impor por meio de ameaças, assassinatos, torturas e perseguições à lideranças que não silenciam diante da exploração.

Em resumo lutamos para que sejam feitas as devidas reparações dos mais de três séculos em que a escravização de africanos e seus descendentes foi o sustentáculo da economia nacional, e que garantiu fortuna e luxo a senhores que acumulavam títulos e mais títulos de nobreza.

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Dacia Moreira é historiadora e representante do Fórum da Juventude Negra no Maranhão.

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