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POR Andressa Valadares

Crônica de um amor padronizado

Colunistas / 13.11.15

(Trilha sonora: Last Nite – The Strokes)

Ana não conseguia controlar a ansiedade. É que há duas noites ela havia conhecido alguém. Trocaram olhares, palavras, saliva e, lá pelas tantas da madrugada, telefones. No fim, prometeram marcar qualquer coisa, qualquer dia desses. Trocaram o ponto final pelo ponto continuando, naquela sexta-feira ébria cheia de reticências.

É mais ou menos assim que começam os dilemas do tal ‘dia depois’. Já se estabeleceu uma cartilha social de como se comportar nessas situações. É como se fosse um manual de “como agir após conhecer uma pessoa na noite anterior e fingir não ligar no dia seguinte”.

Eu nunca entendi o motivo de mostrar desinteresse quando se está interessado. Dizem que é um charme. Que as pessoas tendem a se atrair – e a valorizar – quem se faz de difícil. Sempre achei esse argumento furado. Não vejo lógica nenhuma nisso. Na verdade, considero uma perda de tempo. É como se você tivesse adiando a felicidade, ou uma simples diversão, para não transparecer um desespero/carência rotulado por um manual sem noção, fundamentado em coisa nenhuma.

Se você é mulher então, a patrulha piora. O peso de uma tradição secular que restringe as mulheres ao papel de “presa” e nunca de “caçadora”, muitas vezes faz até a mais bem resolvida das mocinhas pestanejar quando bate aquela vontade de fazer uma ligação, ou mandar uma mensagem, nem que seja um simples bom dia.

O jogo das relações amorosas tende a ser tão padronizado que, além de toda a luta da conquista, sobra até para os casais já formados, que algumas vezes se deixam guiar por uma cartilha que não lhes cabe. Não lhes cabe simplesmente porque toda relação é uma construção. É morder e assoprar. É partir e juntar os cacos. É moldar. É ceder, somar e multiplicar. E nunca será igual.

Dizem que, após uma briga, o certo é se fazer indiferente e nunca correr atrás. Ainda que você esteja se remoendo e com o corpo em frangalhos e cheio de desejo de resolver as coisas. Você não deve correr atrás porque, dizem por aí, não se deve deixar transparecer ser o elo mais fraco de uma relação.

As situações são inúmeras e se eu fosse discorrer sobre todas talvez faltassem caracteres. A gente sempre sabe, no fundo no fundo, a hora de fincar raiz e a hora de bater asas. Não precisa de manual ou cartilha para isso. Assim como não deveria existir uma norma de conduta ou uma padronização das relações. A vida seria muito mais leve e as pessoas mais felizes se uma ligação no dia seguinte fosse apenas uma ligação no dia seguinte, e não um evento superestimado capaz de mapear toda a sua personalidade e anseios.

Vamos ser mais de boa e curtir o momento. Já disse por aqui uma vez e repito: deixa o vento soprar, let it be!

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Andressa Valadares é jornalista e socióloga de botequim. Acredita no delírio cultural em massa de que a aparente posição do sol, relacionada com as constelações na hora do seu nascimento, de alguma forma afeta sua personalidade.

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