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POR Manoel Veloso

ReFiCOFaGE

Colunistas / 12.11.15

Continuo sem entender essa (falsa) necessidade de organização e classificação que a humanidade tem. “Até segunda ordem” (ainda tentando me livrar desse complexo de organização exacerbada – não consegui uma expressão melhor) somos todos homo sapiens sapiens. Qualquer tentativa de caracterização a partir daqui é supérflua, superficial e pode fundar-se em preconceitos. Podem gerar, portanto, anomalias no sistema. E nesse ReFiCOFaGE da vida, enfrentamos muitas. Perigosas, violentas, homicidas, massacrantes. E, sem dúvidas, uma delas é a homofobia.

Essa semana foi divulgado o resultado de uma pesquisa feita com 8283 estudantes entre 15 e 29 anos de diferentes núcleos acerca da convivência escolar. Perguntava-se aos alunos qual pessoa não gostariam de ter como colega de classe. O objetivo da pesquisa era observar as razões do abandono dos estudos nesse segmento. Obteve-se o resultado que 19% dos entrevistados rejeitam colegas de classe homossexuais, transexuais, travestis e transgêneros.

Aqui cabe uma observação importante sobre a pesquisa: só era possível marcar uma única opção. A maior porcentagem foi direcionada aos bagunceiros e arruaceiros, que impedem o andamento das aulas, com 41%. Percebemos, portanto, que o incômodo com a sexualidade da pessoa ao lado é grande o suficiente para mais de 1570 alunos preferirem a bagunça em sala de aula.  Ademais, se fosse possível escolher mais de uma opção na pesquisa, certamente teríamos um resultado superior a 19%.

O ambiente escolar, que deveria ser propício à quebra de paradigmas e construção de um ambiente plural e diversificado, em verdade, permanece maculado pelo preconceito. Em vez de discutir problemas dessa seara, permanece-se jogando para debaixo do tapete, tal qual fizeram os legisladores estaduais de várias regiões do país, que rejeitaram a inclusão de metas de combate à discriminação de orientação sexual e identidade de gênero nos planos estaduais de educação. O mesmo aconteceu anos atrás, quando foram recolhidos os “kits gays” das escolas. Mais uma vez abstemos da discussão e, diretamente, concordamos com o preconceito e a violência. E estas são alarmantes: a cada 28 horas morre um brasileiro vítima de crime de ódio fundado em orientação sexual (segundo o Grupo Gay da Bahia, em pesquisa realizada em 2013). A homofobia está presente no Brasil. E mata.

Ainda que esses números sejam de domínio público, continua-se remando em desfavor dos cidadãos LGBT. Em recente projeto do Legislativo nacional, foi suscitada a criminalização da heterofobia. Se não bastasse a marginalização do segmento e sua perseguição famigerada, busca-se blindar aqueles responsáveis pela perpetuação do preconceito, impedindo a voz do segmento LGBT. Curioso perceber que o projeto pretende avançar com argumentos inexpressivos e vazios. Afinal, não são os heterossexuais que correm risco de vida simplesmente por gostarem de A ou B; não são os heterossexuais que são impedidos de galgar certos cargos em suas profissões; não são os heterossexuais que são expulsos de casa, do convívio familiar, de empregos; não são os heterossexuais que são repreendidos por uma mínima demonstração de afeto em público; não são os heterossexuais que morrem em vida, impedidos de ser quem são; não são os heterossexuais que morrem por sua orientação sexual. Não são.

Por sua vez, o Estado do Rio de Janeiro avançou em favor do público LGBT. Este mês entrou em vigor a Lei Estadual nº 7.041/2015, que estabelece a punição de agentes públicos e estabelecimentos comerciais por discriminação, tanto de orientação sexual quanto de gênero. O valor da multa pode chegar a R$60.000. Outrossim, há de se ressaltar os avanços iniciados com a decisão do Supremo Tribunal Federal de 2010, com a possibilidade de haver união estável entre casais homossexuais. No mesmo sentido fez o CNJ, que efetivou a decisão no âmbito cartorário à favor do casamento civil. E, também, a possibilidade de utilização do nome social no Exame Nacional do Ensino Médio de 2015; bem como na matrícula em universidades, como é o caso da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que prevê essa possibilidade em seu regimento.

Aos empurrões os direitos civis estão chegando ao alcance do segmento LGBT, a contragosto de muitos. Insistimos em determinar pessoas quando, em verdade, deveríamos deixá-las livres. Livres das classificações. Livres dos preconceitos. Livres para ser quem são. É preciso aprender a conviver, a respeitar, a amar o próximo. Deixemos que Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero e Espécie sejam as únicas coisas que determinem os seres – só interessante para a Ciência. Comecemos a perceber o outro como um igual. E, por fim, a entender que Amor é Amor, independentemente por quem seja.

#LoveWins

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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