Foto Colunista

POR Brenda Izidio

Somos todos parte da natureza

Colunas / 10.11.15

Se você pedir para alguém descrever a Terra, certamente essa pessoa vai falar sobre um planeta esférico de cor destacadamente azul por conta da sua enorme quantidade de água. Talvez ela fale sobre as incríveis paisagens de florestas ou savanas, praias, desertos ou montanhas que abrigam uma biodiversidade que só existe aqui, até onde sabemos. Sem dúvidas, isso é realmente verdade e transmite uma sensação de equilíbrio que só conseguimos quando estamos em meio a essa natureza. Já aconselhavam os literários do arcadismo: fugere urbem.

A televisão e os demais meios de comunicação que se desenvolveram nesses tempos modernos mostram tudo àquilo que podemos encontrar na natureza. Mais ainda: mostram-nos tudo aquilo que podemos usufruir, aquilo que podemos tirar de proveito dela – da matéria-prima para produtos até o lazer antiestresse. Assim, fomos acostumados a pensar que os recursos naturais são infindáveis e que estão disponíveis sempre para usufruto humano, como se não houvesse nenhuma outra finalidade para eles.

O fato é que por conta dessa visão antropocêntrica que favoreceu o uso descontrolado da natureza para diversos fins, nossos ambientes estão cada vez mais desgastados e a Terra, com sua lenta capacidade de regeneração, vive um período de quase colapso. A algumas semanas da realização de uma das conferências ambientais mais importantes das Nações Unidas, a COP 21, a ser realizada em Paris, a preocupação atual e polêmica de líderes e civis mundo a fora são as mudanças climáticas.

Apesar das controvérsias, não há como negar que o clima global está mudando e as evidências estão disponíveis nos noticiários diariamente. Enchentes, desabamentos, elevação do nível do mar, derretimento das geleiras do Ártico, extinção de espécies, aumento dos índices de doenças humanas, principalmente respiratórias, queda na produtividade agrícola e várias outras consequências que estão interligadas e que afetam a manutenção e a qualidade da vida na Terra.

Com os ecossistemas aquáticos também não tem sido diferente. Devido à histórica falta de consciência humana e a ausência ou ineficiência de planejamento e de estratégias para destinação dos resíduos das produções industrial e doméstica, nossos mares e oceanos são os endereços habituais de tudo aquilo que não utilizamos mais. De tudo aquilo que jogamos fora. Mas por outro lado, se a Terra é uma grande esfera isolada dentro do Sistema Solar, não existe fora: tudo o que produzimos aqui, permanece ainda um bom tempo na superfície e sem muito o que percorrer, se acumula no fundo do mar. É algo tão assustador que existe uma Ilha de Lixo no meio do Oceano Pacífico com aproximadamente 4 milhões de toneladas de plástico e outros resíduos.

A poluição aquática é um problema sério que afeta diretamente os seres vivos desse ambiente. Inúmeras são as espécies prejudicadas pela invasão dos seus espaços. Algumas chegam a confundir o plástico, por exemplo, com alimento, e morrem asfixiadas, sem falar no potencial tóxico que esses materiais possuem. E assim, toda uma rede de relações ecológicas vai sendo alterada pela introdução de novos fatores, como a poluição, em consequência de atividades humanas. Os peixes estão morrendo, os corais estão sofrendo acidificação, as temperaturas globais estão subindo, espécies estão dizimando outras espécies, o desmatamento contribuindo para a concentração de gases poluentes na camada de ozônio e a caça e a pesca descontroladas estão exterminando a biodiversidade do planeta.

Muito se ouve falar agora sobre sustentabilidade, proteção e conservação ambiental. Mas será que nós estamos realmente preocupados com tudo isso? Ora, somos ensinados desde a sexta série de que a Terra é a casa de todos os seres vivos. Mas… Você já parou para pensar que não a divide apenas com as 7 bilhões de pessoas? Já parou para pensar que você e os seus semelhantes não são nem de perto as principais formas de vida aqui existentes? Já se perguntou que tamanha é a nossa petulância em nos acharmos o topo da cadeia alimentar?

Dependemos de outras formas de vida para tudo – para respirar o oxigênio reestabelecido através dos ciclos de fotossíntese, para alimentar-nos de animais e plantas, para nos vestir com roupas e acessórios provenientes de recursos da natureza e morar em habitações transformadas do espaço natural.

Antes mesmo de pensar que a proteção aos ambientes seja uma obrigação das autoridades de governança, não devemos nos eximir dessa responsabilidade. Modificamos o meio em que vivemos e isso em si, pode ser considerada uma atividade natural, pois somos parte da natureza. Mas o que não podemos é impedir a coexistência de outras espécies vivas, invadindo seus territórios, destruindo seus habitats e suas fontes de alimentação, reduzindo, massacrando, dizimando suas populações.

Há quem se espante e me chame de pessimista ou de ecochata quando falo do atual quadro de devastação do planeta. Mas a minha preocupação é real. Consigo afirmar com clareza que as mudanças no clima, por exemplo, são factuais e que os cenários das previsões são mais que alarmantes. Defendo, enquanto bióloga, ativista, pesquisadora, ecóloga, educadora ambiental e todos os outros adjetivos que se dá (não vejo isso como mérito) ou simplesmente como um ser vivo que, como os outros, depende de tudo o que existe aqui para continuar vivendo, que toda contribuição, por menor que seja, é essencial para a recuperação da Terra.

Cuidar do planeta é um dever de todos e é necessário que cada ser humano se veja como parte dessa grande cadeia vital, se responsabilizando por suas ações individuais ou coletivas e que afetam e vão afetar as gerações seguintes. Quando eu descobri que queria ser bióloga, sabia exatamente que aquela era a minha missão no mundo. Não era só uma questão de estudar as diferentes formas de vida, mas de lutar pelo direito de existência de todas elas. Eu não tinha a menor noção do tamanho da crise ambiental do planeta e do quanto seria difícil não conseguir solucionar nada sozinha. Mas eu queria fazer algo. Eu quero e faço parte da solução, por menor que seja.

Desde então, há cinco anos trabalho com educação ambiental e voluntario em uma organização não governamental que capacita e empodera jovens mundo a fora para participar ativamente das negociações ambientais com as lideranças políticas. Acredito firmemente que a informação é a melhor forma de sensibilizar as pessoas acerca das questões socioambientais.  Acho que se é possível sonhar e querer um lugar melhor é possível transformar e tornar real esse sonho.

E você, no que acredita? Vai aproveitar que o tempo não para e tomar a decisão de contribuir para tornar o mundo um lugar melhor?

____________

Brenda Izidio, 22 anos, ativista ambiental desde criancinha, estudou Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Maranhão e é articuladora da ONG Engajamundo. Com presunção tem dentro de si todos os sonhos do mundo e acredita firmemente no papel transformador que cada pessoa pode desempenhar para o bem comum no mundo.

_____________________________________________________________

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Site BH. Possibilitamos que o leitor conheça opiniões diversificadas sobre os assuntos em pauta nas mídias sociais. Sempre iremos expor visões diferentes para que o leitor se questione, questione o mundo ao seu redor e, principalmente, corra do senso comum. Quer ver o seu texto por aqui? Mande para redacaositebh@gmail.com

2 respostas para “Somos todos parte da natureza”

  1. Vitória says:

    Sensacional! É exatamente isso aí, falta essa noção de pertencimento ao meio. Romper com uma visão antropocentrista de dominação da natureza, como se enquanto seres humanos nós fôssemos superior a todos os demais seres vivos, sendo que na verdade, somos dependentes deles. =)

    Parabéns!!

  2. Texto nota 10000, parabéns!
    Maravilho.

Deixe uma resposta

*

ARQUIVOS

BH NO INSTAGRAM

FOLLOW @BARBARAHELLEN

BH NO FACEBOOK

www.000webhost.com