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POR Bárbara Hellen

O monopólio da confiança

Colunistas / 10.11.15

“Como bem escasso, a confiança pode tornar-se um monopólio natural. Tendo o consumidor encontrado um fornecedor confiável, há um incentivo para permanecer com ele em vez de pagar o custo de tempo e esforço para avaliar um substituto. Vou ao mesmo barbeiro há vinte anos por esse motivo”

Na sua vida, quem é o barbeiro? Quem é a pessoa que você confia tanto que chega ao ponto de deixar essa pessoa ultrapassar, por exemplo, os limites das suas próprias vontades? É o chefe que paga o seu salário fielmente todo mês, mesmo que ele te xingue o dia inteiro? É o seu namorado que, mesmo com um relacionamento já desgastado, é alguém que você sabe que pelo menos está ali? Ou é aquela sua amiga de infância que com certeza sabe mais depois de tantos anos de convivência?

É interessante perceber que – querendo ou não – algumas pessoas exercem um verdadeiro monopólio sobre as nossas vidas, nossas preferências, decisões e até opiniões. São pessoas que confiamos tanto que nem questionamos o que elas nos dizem. Que confiamos tanto que em momentos que estamos confusos ou inseguros elas se transformam em um porto-seguro. Corremos para elas quando tudo começa a desabar e escolhemos o caminho que elas nos propõem – mesmo que seja um caminho totalmente diferente daquele que realmente desejamos. São aquelas pessoas que já não conseguem atuar no mesmo papel, mas insistimos que texto decorado é certeza de uma boa apresentação.

Nem sempre é.

O monopólio da confiança é recorrente porque sair da zona de conforto é muito, mais muito, difícil. Decidir tentar algo totalmente novo, seja um novo amor, uma nova amizade e até um novo cabeleireiro exige coragem, uma pitada de desapego e muita segurança em si próprio. Como essas três características são raras, optamos então por permanecer igual. No mesmo trabalho, com os mesmos amigos, aceitando diferentes tipos de traição e sempre com aquela sensação de confusão e insatisfação. Com aquelas pessoas que são seguras, confiáveis, ao nosso redor. Pelo menos, temos elas. Se somos realmente felizes assim, já não podemos afirmar.

Penso sempre nisso quando percebo que uma amizade mudou, já não é a mesma. Quando alguém que era superimportante vira mais um. E ai qual é o nosso instinto principal? Querer manter aquela pessoa na nossa vida, a todo custo. Tentamos diversos tipos de reaproximação, inúmeras vezes, para que possamos somente ter elas em nossas vidas. Não importa aqui se a pessoa está nos faz bem ou não. Isso é um monopólio.

Se no teatro, diferentes atores compõem diferentes peças, na vida não seria diferente. O que a gente tem que compreender é que nossa vida não é apenas uma peça com os mesmos personagens. Nossa vida são várias peças e é possível contratar novos atores. Nada é fixo, definitivo, eterno. E para viver novas histórias, às vezes é necessário mudar os atores.

Não me compreenda errado: tenho meus eternos personagens. Mas não se engane, muitas e em diversos momentos, eles apenas mudam de papeis.

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Bárbara Hellen é jornalista. Troca qualquer coisa por um bom livro ou um sábado na praia. Tagarela e cheia das opiniões, adora conversar sobre política e religião… Ou sobre qualquer outra coisa. Ama Fernando Pessoa e cai no clichê ao crer que sim, tudo vale a pena se a alma não é pequena.

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