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POR Vitoria Colvara

Nosso lixo não compõe paisagens paradisíacas

Colunas / 10.11.15

Pra começo de conversa, esse é um dos milhões de começos que cheguei a escrever. Acho que é porque quando alguém me aborda pra falar sobre meio ambiente, sempre me vem milhões de ideias na cabeça. E se falo de milhões, em total exagero, é para chamar a atenção de vocês para um fato um tanto quanto curioso: hoje somos 7 bilhões de pessoas vivendo das mais variadas formas possíveis no Planeta Terra, que como diria Mahatma Gandhi, provê o suficiente para todos, mas não para a ganância de uns.

E é justamente por conta dessa ganância de uns e de outros que hoje estamos todos em crise. Seja ela política, econômica, social ou pessoal, o que precisamos entender de uma vez por todas é que tudo, absolutamente tudo, possui uma relação com o meio ambiente. Até o Papa tá falando de preservação ambiental, gente. Falar de crise ambiental, portanto, não é, ou pelo menos não deveria ser, um fenômeno específico e isolado como se estivesse muito distante de nós.

Desde o momento em que acordamos estamos consumindo recursos naturais. O ser humano com toda a sua inteligência e capacidade inventiva, ainda não descobriu uma maneira de viver sem dois elementos básicos da natureza: água e oxigênio. Então, embora eu considere muito válido e interessante o esforço da NASA para encontrar vida em Marte, eu me pergunto, por que é que a gente não tenta recuperar a vida que temos aqui, na Terra? Por que é que ao invés de elaborarmos um plano super estrelar de mudar de planeta, a gente não cuida desse aqui que é tão agradável?

Duvido que em Marte tenha praias tão deliciosas quanto as nossas. E falando em praia, hoje mesmo vi uma galera fazendo uma ação ambiental super legal. Escolheram pontos específicos para colocar lixeiras de coleta seletiva. Sim, aquelas coloridinhas super fofas que quase ninguém presta atenção e joga vidro no vermelhinho, plástico no azulzinho e por aí vai… Quando fui elogiar a ação, um amigo meu virou e disse “É, mas não adianta ter isso aqui se não existe uma coleta seletiva”. Será que ele tá certo? Mais ou menos, mais ou menos. Falta comprometimento político com a causa ambiental, mas essa falta de comprometimento, infelizmente, é um reflexo social.

Em primeiro lugar, qualquer ação ambiental tem como objetivo principal conscientizar as pessoas e alertá-las sobre algo que é tantas vezes esquecido. Em segundo lugar, embora a coleta de lixo ainda – sim sou esperançosa – não seja seletiva a partir do momento em que o lixo é separado pelo menos entre resíduos (aquilo que se pode reciclar) e rejeitos (aquilo que não se pode reciclar) o trabalho dos catadores se torna muito menos desgastante. Mesmo que tudo aquilo seja misturado pelos caminhões e jogado num aterro sanitário ou nos nossos tantos lixões a céu aberto, os catadores que sobrevivem dessa coleta conseguem separar de forma mais rápida e higiênica.

Além disso, a frase do meu amigo reflete certo conformismo. Aquela ideia de que não adianta que eu, sozinho, faça a minha parte. Tá, uma andorinha só não faz verão, um beija flor só não apaga incêndio, mas será mesmo que o N O S S O lixo não é também N O S S A responsabilidade??

Há alguns anos a CEMAR lançou um projeto de troca de resíduos recicláveis por bônus na fatura de energia elétrica. Desde que me cadastrei no projeto sempre ouço coisas do tipo “ah, mas o desconto é muito pouquinho, não vale a pena”, “e todo esse trabalho para separar o lixo?”, “lavar potinho de iogurte já é demais, né?”, “só o tempo que tu gasta pra separar isso tudo e ainda ter que levar até lá?”. A partir dessas colocações, feitas em sua maioria por pessoas que frequentaram a escola, a universidade e afins, é possível chegar à conclusão de que o problema não é a falta de um sistema de coleta seletiva, o verdadeiro problema é a falta de consciência e de auto inserção no meio ambiente.

Cada vez mais fechadas dentro do carro, dentro do apartamento, dentro de uma tela de computador, as pessoas se sentem cada vez menos parte do meio ambiente. Comendo todos os dias produtos industrializados, parece até que a galera se esquece de que nossos alimentos provem da natureza. E, por mais paradoxal que isso possa ser, embora no dia a dia vivam enclausuradas nos seus escritórios sem janelas, quando chega o fim do ano, todo mundo quer viajar para lugares paradisíacos, mares azuis, tirar selfie do alto de uma montanha ou ao final de uma trilha ecológica.

Nem precisamos ir muito longe, bem aqui do lado temos um paraíso a perder de vista: os lençóis maranhenses. O Rio Preguiças que parece não ter fim cercado por vegetação que dá gosto de ver, areia branca, lagoas azuis e latinhas de refrigerante, garrafinhas de água mineral, isopor, cartela de remédios, embalagem de protetor solar, fraldas descartáveis, pacote de salgadinhos…

O homem vai a Lua, vai a Marte, mas não consegue ir até a próxima lixeira segurando seu próprio lixo. Além da poluição visual, que pelo menos pra mim é o de menos, tem também a poluição oceânica gerada por todo esse lixo. De acordo com um relatório da IUCN (International Union for Conservation of Nature) nós, seres humanos, já exterminamos 50% da biodiversidade marinha. 80% das aves marinhas já ingeriram plástico.

Se as vastas pesquisas de especialistas no assunto são alarmantes ou não, isso eu não posso garantir. Mas o que eu posso dizer com toda certeza é que estamos perdendo biodiversidade sim, as temperaturas estão aumentando sim, estamos vivenciando uma crise hídrica jamais vista na história sim, e não, não estamos nos esforçando o suficiente para mudar essa realidade, para recuperar nossas áreas degradadas, para preservar o nosso querido Planeta que por tantos anos nos hospeda e já vem demonstrando sinais de colapso diante de tantos maus tratos.

Aos curiosos no assunto, aqui vão algumas dicas de sites: Ecocemar, Planeta Verde, IUCN, Vatican, Green Peace

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Vitoria Colvara tem 24 anos muito bem vividos. Apaixonada por viagens, crianças e livros. Advogada, professora de espanhol e kitesurfista, não necessariamente nessa ordem. Ambientalista de corpo, alma e coração.

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2 respostas para “Nosso lixo não compõe paisagens paradisíacas”

  1. Parabéns pelo artigo!
    Você tem muito conteúdo pra alguém da sua idade!

  2. Parabéns Vitória, você de uma forma clara e inteligente faz um alerta sobre a necessidade de uma consciência ambiental.

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