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POR Manoel Veloso

Patinho Feio

Colunistas / 05.11.15

História antiga, de moral indelével. O patinho que não se identificava com os demais pela aparência diferente, de tanto ser taxado como feio, passou a acreditar. E sofreu com isso até descobrir-se um belo cisne. Mas, até hoje, insistimos em não aprender a lição. Sofremos com os padrões de beleza; com as incontáveis comparações; com a necessidade incontrolável de classificações. A verdade é que continuamos incapazes de compreender as diferenças e suas virtudes.

O “complexo de patinho-feio” atinge a todos, em todas as esferas possíveis. Aqui, entretanto, concentro a análise no brasileiro enquanto ser no mundo e em sua própria casa. Somos convencidos diariamente, desde os primórdios de nossa história, de que somos um povo fraco, corrupto, necessariamente aquém dos demais. Mais pobres, menos virtuosos, contornáveis, frágeis, fracos, bobinhos, carentes, produtores primários, reprodutores. Não somos europeus, nem africanos, nem propriamente indígenas. Da mistura de cores e sabores, o brasileiro se formou. E não nos identificamos com esses povos isoladamente. Estamos na mixagem, na mistureba, na meiúca. “Você não tem cara de brasileiro”, já cansei de ouvir isso por essas bandas do Atlântico – porém nunca ouvi falar de uma característica física genuinamente brasileira.

A mídia internacional vendeu a imagem da República das Bananas e encarnamos o espírito, aos moldes daquilo que era vendido como “Brasil”. Para o mundo, uns bananas. Para nós mesmos, aqueles que nunca chegarão lá por sermos bananas. Assumimos uma identidade que não é propriamente nossa. E passamos a vangloriar os outros, uma vez que, dentro de nossos limites, acreditamos não ter nada de bom. Assim importamos restaurantes preferidos, bandas e músicas, moda, literatura e toda arte, doutrina, ciência. Desmantelamos e desacreditamos na Academia nacional em razão de parcos ditames do além-mar. Sucateamos nosso país para poder enxergar belezas do outro lado. Descuidamos da nossa grama para poder dizer que a do vizinho é mais verde. Eternamente insatisfeitos porque acreditarmos que não podemos nos satisfazer.

Fora de nossas fronteiras, BRICS, G-20, discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, uma das maiores economias do mundo, reservas naturais invejáveis e tantas outras qualidades não convencem (ou acreditamos piamente nisso). Continuamos a acreditar que estamos à margem de tudo e de todos, muito atrás da Zona do Euro e afins. Por fim, em casa, “assolados em crise econômica e política”, esperneamos e clamamos por socorro, acreditando estarmos afundados na lama até o pescoço.

Olhamos no espelho e insistimos em ver um pequeno patinho feio, esquálido, raquítico, sem vida. Ah, se soubéssemos da verdade! Se pudéssemos ver além do reflexo que, em verdade, nada diz sobre nós. Precisei sair do Brasil para poder enxergar tanto poderio. Precisei estar longe para acreditar que tenho bons professores, uma boa faculdade, uma boa cidade. Precisei estar longe para perceber que somos um povo guerreiro, trabalhador, inteligente e capaz. Capaz de muito! Capaz de tantas que, ainda com contratempos e autossabotagem, permanecemos de pé, entre os maiores.

Falacioso seria se eu me abstivesse de tecer comentários sobre o que temos de revés. Falhamos em pontos cruciais. Investimentos básicos, qualidade em serviços, controle de informação e de processos…A lista é grande. Mas não é infinita e impossível. As melhorias são tangíveis. Estamos a depender somente de nós. Precisamos acreditar que somos bons, grandes, capazes. E, principalmente, que de patinho feio não temos absolutamente nada. Somos cisne, sim. E com muito orgulho.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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Uma resposta para “Patinho Feio”

  1. Auto-estima é a primeira das qualidades de um povo desenvolvido e aqui não cabe discutir o que vem primeiro, se ela ou algum resultado que a justifique… Um País sem identidade é um país perdido nas trevas de uma busca incessante pelo sucesso alheio, ao invés de construir o seu. Sonho um dia ver nós brasileiros se enxergando para além das limitações econômicas e de um fosso de séculos de colonialismo/imperialismo, para que possamos construir o país que sonhamos a cada dia: na mudança de modos, na crença de que um país é construído pelos seus cidadãos – e não pelos governantes, na certeza que só o amor ao que é nosso nos salvará…

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