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POR Manoel Veloso

O Suco de Beterraba

Colunistas / 29.10.15

Dos que já ouvi, esses são os mais intrigantes. Não por terem vindo de Gabriela, mas pelos “antitéticos paradoxos de tão simples vivências”. Mas deixemos o vocabulário bonito desse povo entendedor das leis e vamos mergulhar nas verdades que descobri no meu sertão. Vai desculpando as palavras meio perdidas no tempo, meio sem nexo. Mas de quem escutei e de onde eu vim, o que não faz sentido é não poder lavar a honra como se deve. E desde aqui vou logo soltando meu veneno pra vocês, povo que se diz entendedor das leis dessas bandas: aqui o buraco é bem mais embaixo. Mas antes que toda minha prosa vire um verdadeiro manifesto contra toda a desgraça de vidas secas, hei de fazer aflorar um bom causo dessa boa menina, Gabriela, que já diziam não atinar em nada quando chegou a este mundo, mas creio eu, com a Glória de nosso Pai, já nasceu entendedora de muita coisa.

Pra dar início a essas crônicas que por demais da conta hei de gostar de relembrar, nada mais justo que começar pelo famoso causo do suco de beterraba. Ainda aqueles que não estiveram presentes no baile da famosa charanga que esteve na cidade ficaram sabendo da história. Nada mais justo, já que, por essas bandas, o que acontece na casa grande da Fazenda toma logo gosto na língua do povo. E de tanto tomar gosto, às vezes, o povo aumenta. Mas aumenta pra ruim. Até porque se fosse pra bom, não estaria eu aqui falando mal da língua do bem. Isso que dá dar ouvidos às comadres, meu Pai. Se já não deu asa à cobra, por que diabos deu língua à sogra? Coisas de vossa natureza que nunca hei de entender. Mas hei de reclamar baixinho. Vai que o coronel, que ainda acredita ser prefeito dessas bandas, acorda do pesado sono e descobre que a República já chegou e que há derrubá-lo da rede, do trono, do poder…

Era noite de São Braz. Há muito não se comemorava com tanto prazer, beleza e festa. Ainda creio que algo bem maior embalava aquela festa. Não esses alucinógenos que os artistas das bandas europeias desse mundo trouxeram pra cá. Tô falando de um sabor diferente, de um gingado diferente. Pareciam comemorar uma vitória que há anos esperavam. Nunca hei de entender que vitória era aquela. Foi um tanto feliz demais que nosso Pai mandou um pé d’água dos bons para acalmar as estribeiras e molhar um pouco nossas tão secas terras, que de sede já estavam morrendo há dias.

Toda a Fazenda estava lá. Dos mais antigos aos mais jovens. Dos meninotes aos velhos de barba e bigodes, com seus amigos da capital federal.  Das inocentes raparigas às comadres linguarudas, que observavam com mais esperteza que urubu à procura de carniça. E entre os inocentes e espertos, Gabriela. Jovem e serelepe Gabriela, que com a mesma graça que mexia a colher de pau no caldeirão de cozido, embalava seu corpo, acompanhando os acordes da charanga barulhenta.

Tanta graciosidade e beleza, inevitavelmente, despertaram o interesse dos coroneizinhos, que com seus bigodes e lentes falsas, tentavam parecer mais velhos e encorpados. Olhavam e imaginavam Gabriela cuidando de suas terras, chamando-a de sua. E a pobre Gabriela, de nada atinava, e ali mesmo continuava sua dança, inocente e apaixonante. Um verdadeiro louvor ao São Braz.

Eis que certa hora da festa o curandeiro da Fazenda se atreve a mergulhar em uma de suas espevitadas ideias. E do meio daqueles miolos embebedados pela Glória divina, surge o suco de beterraba. Não qualquer suco, nem a pura beterraba. Mas um elixir da verdade. Um elixir que faria a mais profunda ideia saltar entre os dentes dos brincantes das festas. Até hoje todos se perguntam o porquê desta ideia do curandeiro. Ninguém chegou a uma resposta, mas as más línguas das comadres acreditam que o curandeiro estava atrás mesmo era de uma concubina que espreitava a Fazenda pela primeira vez, e queria saber se ela ainda era moça. E se poderia ser sua.

Assim, sob o luar de São Braz e a fervura de seus miolos, o curandeiro fez o tal suco. Escolheu fazer com beterraba porque seria o mais inusitado naquelas bandas da Fazenda, o que faria com que todos experimentassem um pouco daquela gororoba. Além do mais, a chuva veio descompassada nessa época do ano, acertando só a época das beterrabas. Ou era o suco roxo, ou de quiabo. E de quiabo, só se fosse com caldo de feijão. E cozinhar feijão nas alturas da noite de São Braz não fazia muito sentido.

Depois de pronto, o suco foi distribuído. Os coroneizinhos, pra mostrar bravura, tomaram primeiro. Só os verdadeiros machos daquelas bandas tomariam uma caneca cheia até a borda. E assim o fizeram.

Em seguida, às meninas. Gabriela tomou uma caneca nas suas mãos, mas não lhe agradou muito um suco roxo. Acostumada aos sucos amarelos das laranjas da Fazenda, aquele líquido roxo era, no mínimo, asqueroso. Mesmo assim, tomou um grande gole. Sentiu o gosto doce da beterraba escorrendo pelo gogó. E quis mais. Tomou a caneca inteira.

Então o curandeiro viu a feitura de sua magia em forma de suco. Gabriela dançou como poucos, em oferenda ao São Braz. Como se fosse capaz de tocar os pés do santo e rezar quantos rosários fosse possível para que ele lhe agraciasse com mais uma caneca de suco. Algumas palavras saltavam de sua boca. Professou seu amor por seus pais, que há muito parecia não ver (com tanta saudade, creio que não os via há tempos). Mostrou sua face despida de ingenuidade e encarnada de malícia, que deixava seu rebolado cada vez mais envolvente. Parecia que o suco dera-lhe uma nova vida, uma nova alma.

Os coroneizinhos logo esticaram seus olhos para a moça. Parecia mais convidativa, que o cortejo talvez fosse correspondido. Um deles, bem atrevido, colocou um par de lentes e foi ao encontro da doce Gabriela. Com todo um jeito faceiro, com biquinho de colibri e olhos cerrados de constipação profunda, tentou-lhe um convite para a dança. A charanga há muito parecia insistir na mesma música, cada vez mais alta e ensurdecedora, de fazer os ouvidos doerem. Assim, a conversa de Gabriela com o coronelzinho de bigodes falsos e muito ego permanece em segredo. Mas como ele saiu de fininho, creio que a moçoila foi tão mais esperta e iluminada que deixou o mentiroso avexado.

Ainda inebriada pelo suco de beterraba, Gabriela fez da charanga sua bateria particular. Transformou-se de cabocla em rainha. E mostrou que, mesmo saindo das brenhas das fendas das terras mais secas do sertão, o ritmo que batia em seu coração era igual àquele que vinha da capital. Um tal de samba. Mas parecia mais uma pomba gira, a dança do crioulo doido. Mas se a capital dança, boa coisa deve ser.

E assim, Gabriela encantou a cidade. Não só os embigodados verdadeiros e falsos. Mas a criançada e as moçoilas. Virou xodó da Fazenda. Todos, agora, querem imitar os passos de Gabriela. Quem não gostou nada disso tudo foi o curandeiro, que não conseguiu seduzir sua concubina. E o coronelzinho de bigode falso, que até hoje de avexa de ver a menina desfilando com todo seu rebolado nas terras da Fazenda a vender suas laranjas.

Quem deve ter gostado muito foi São Braz, que mandou muita chuva e encharcou nossas terras, trazendo uma colheita nunca vista antes.

Se não foi nada disso, foi milagre de Gabriela. Doce e meiga Gabriela. Que trouxe pro mundo um tanto mais de beleza, graça e Glória, fazendo do seu sorriso a luz do dia e das petecas de seus olhos a lua de nossa noite. Que, com um suco de beterraba, deixou de ser cabocla pra tornar-se rainha. Símbolo do festejo de São Braz. A cara desta terra. A certeza de dias melhores. Um pouco amor pra trazer muita vida para essas mortas vidas secas.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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