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POR Manoel Veloso

Como vai você?

Colunistas / 22.10.15

E assim começou a nossa (talvez última) conversa. Do fundo do coração: eu não sei te responder. Não sei mesmo. Eu continuo – completamente – perdido desde que tu simplesmente acordaste, levantaste e… não sei para onde foste. Só sei que para bem longe de mim. Bem longe mesmo. Daquelas distâncias em que o ditado popular disse que Judas perdeu as meias, porque as botas conseguiram ficar um pouco antes.

Com essa pergunta digna de resposta socrática, tu me trouxeste um enxame de informações que eu teimava em empurrar para debaixo do tapete. Aquela poeira incômoda de faxina pesada que, para realmente nos livrarmos dela, temos que mover céus e terras dentro de casa, sabe? Eu sou péssimo na faxina, tu sabes disso. Pelos caminhos que traço, faço questão de deixar tudo em ordem. Mas tu sabes bem que, se olhar para fora da rota (daquele caminho estreito que percorro), eu me perco em um mundo capaz de me devorar em segundos. Sabes disso como poucos: quantas e quantas vezes perguntaste o que eu pensava, e eu te respondia que nada me perturbava. Mas, com uma destreza somente tua, abrias um sorriso e tudo aquilo que estava prestes a me devorar desaparecia. Mágico. Tu sabias que eu não estava bem e, igualmente, conhecias o remédio. Mágico.

Por debaixo daqueles óculos (que tanto insisti para que tu trocasses) eu encontrei alguém diferente. Que ainda permanece diferente. De tudo, de todos. Como eu seria capaz de imaginar que tamanho ser humano pudesse derrubar tantas colunas – e aqui falo especificamente daquelas colunas que te disse que edifiquei a mim mesmo. Duvido que até Alexandre (o Grande) fosse, de fato, tão grande quanto tu. Posso te olhar por cima, mas, quando esbarro nos teus olhos, eu quem fico miúdo. Eu quem deveria ficar na ponta dos pés para te encontrar.

Com tua pergunta, eu encarei teus olhos novamente. Mas, dessa vez, eu não sorri. Eu senti uma coisa diferente. Não era incômodo, não era um estômago dolorido, não era um calafrio. Foi aquilo que ainda não tem um nome próprio. A melhor definição talvez seja essa: “momento em que encarei (de peito aberto) toda a bagunça, coisas para pôr no lugar, descartáveis, lixo, lembranças, momentos, esperanças”. E-S-P-E-R-A-N-Ç-A-S. Bem na ferida que eu achava que, de alguma forma milagrosa e surpreendente, desapareceria. Não seria curada (isso nunca) – só desapareceria. Engano meu. Rude da minha parte. Com três palavras tu conseguiste fazer tudo isso – inclusive cá escrever e tentar entender tudo isso que está passando aqui dentro, aí dentro, entre nós, nesse liame que insistimos em negar a pseudo-existência.

Essa forma amorfa de existência que tanto teima em, de fato, existir. E existe, sim. Porque eu posso estar negando ela desde o dia que tu me deste as costas quando eu estiquei a mão, mas ela está presente, como um encosto em mim. Daqueles bem brabos, porque, se três palavras me jogaram no precipício, imagina a força que isso tem.

Continuo encarando o teclado. Segundos, minutos, horas. A mente fica a mil. Eu poderia mentir e dizer que está tudo bem; que talvez, inclusive, eu esteja bem melhor agora que as coisas estão bem definidas – um em cada canto. Acompanha meu raciocínio: quando estávamos juntos tu insistias em dizer que não estávamos; que as coisas não andariam por “motivos e motivos”; que, por mais que mergulhássemos de cabeça, a coisa acabaria bem mal para um dos lados; que entre viver e deixar passar, tu preferias deixar passar e não “ser trouxa mais uma vez”. Então, agora que (definitivamente) não temos nada, tudo deve estar estável, calmo. Portanto, tu deves estar bem. Ora, por que não estarias bem? Não era eu quem bagunçava tudo, tornava as coisas difíceis, fazia-te perder o sono? Agora que não estou, as coisas podem (e devem!) estar melhores para ti.

Lembro-me bem da minha insistência em tentar reverter essa insegurança. Mostrei coisas que nunca ninguém viu. Permiti conhecer-me de uma forma que ninguém conhece. Da mesma forma que insisti em te conhecer. No caminho vi filmes, escutei músicas, acompanhei seriados antigos, descobri minisséries brasileiras e estrangeiras. Descobri café com canela, cigarros, flores, cores. Mas tudo em vão. Porque mesmo com esforço hercúleo, nada foi capaz de te convencer de que era verdadeiro, era de corpo inteiro.

Por (eu) não ser do teu jeito, fizeste birra, bateste o pé e foste embora. Fugiste sem explicações, sem razões. E para trás os planos, os sonhos, momentos por viver, lembranças por formarem-se, passagens, viagens. Sentimentos. Tu me deixaste.

Ou eu poderia aproveitar a oportunidade e fazer com que tu fizesses a faxina de toda a tralha que deixaste para trás. Fazer-te engolir todos os sapos, carregar nas costas todo o peso dos porquês sem resposta, tirar com pequenas cuias o mar de lágrimas que inunda meus cômodos incômodos. Abrir o verbo, aos berros. Pôr para fora todas as palavras que ficaram atravessadas em minha garganta. E eu te faria entender todo o mau que me causaste nesse hiato de sumiço e silêncio.

Seria uma boa ideia trazer à tona tudo, jogar no ventilador e ver espalhar para todos os cantos nossos pedaços? Ou compadecer, falar que, para mim, foi (e continua sendo) difícil? Que a cada foto sua eu me perco numa correnteza que me puxa para perto de ti e da vontade de saber da tua vida; e, ao mesmo tempo, empurra para longe, repelindo-me desse nó-cego de rancores, perguntas e muito dedo-nas-feridas…

Do oximoro das respostas, nem oito, nem oitenta. Nem mentir, nem todas as verdades de uma só vez. Eis minha resposta:

“Como eu estou? Eu, sinceramente, não sei. E tu?”

Pronto.

Como eu disse bem no comecinho desse desabafo, não sei se esta será nossa última conversa. Aguardarei ansiosamente uma resposta. Não precisa ser agora. Um dia, quando, enfim, estivermos preparados para conversar. Sem rancores, sem dissabores.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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