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POR Patricia Cunha

Santo de casa faz milagre?

Colunas / 19.10.15

Há uns 2 anos eu fui a um evento de samba que contava no line up com vários artistas e grupos de samba locais. O evento durou quatro finais de semana e a entrada era gratuita. Tinha tudo para ser um sucesso de público: boa estrutura de palco, som e luz, segurança, conforto, boa localização e seis apresentações por noite. Mas não foi. Contava-se nos dedos a quantidade de público presente. E era de graça.

Esse é só um dos vários exemplos que temos na cidade. E não se trata só de samba. Shows de música pop, rock, alternativa; peças teatrais; ações sócio-educativas; artes plásticas… O público não comparece. Mas quando você se depara com um show ou espetáculo teatral de fora, percebe que as pessoas se dispõem a pagar o que seja para marcar presença. Shows com preços astronômicos que lembram os praticados em uma metrópole: 150, 190, 200, 300 reais; peças teatrais onde o espaço mais barato custa 50 reais!!!

Enquanto isso os produtores locais, em uma incansável luta para movimentar a cena, se desdobram em produções que, se de um lado não tem o aparato financeiro do setor público, de outro tem uma vontade invejável de colocar em prática o fazer cultural. E tudo isso de graça ou por alguns reais apenas.

Tenho acompanhado algumas produções em que os próprios artistas arregaçam as mangas. Eles correm atrás de patrocínio, quando não conseguem tiram do próprio bolso, montam estrutura, fazem divulgação, vendem os ingressos e ao final, sobem ao palco e cantam, e tocam. E como tocam – no caso de shows musicais. É inegável a qualidade dos artistas maranhenses, mais especificamente os de São Luís. E eles são incansáveis. Não desistem. Pouco público? Não importa. Eles querem se apresentar, mostrar suas obras, deixar suas marcas.

Alguns eventos devem ser lembrados como bem sucedidas produções independentes. Alguns já não acontecem mais, outros continuam aí ao alcance de todos. Com público modesto, mas qualitativo. E, no final das contas, isso é o que importa para essa turma que quer deixar seu nome na história.

E a história não me deixa mentir. Frequentemente atividades independentes pipocam nas ruas e praças de São Luís à espera de uma plateia. Seja na área do teatro, da dança, da música, das artes urbanas e em geral, há sempre alguém disposto a mostrar seu trabalho, mostrar sua cara, ainda que para poucos.

O Sebo no Chão, que acontece aos domingos no bairro Cohatrac, tem sido um espaço bem propício para a interação e troca de experiências de novos artistas das mais diversas áreas culturais. Outro que deve ser citado é o BR-135, idealizado por Alê Muniz e Luciana Simões. O projeto que começou de forma independente para dar espaço a novos e experientes artistas, ganhou visibilidade dentro e fora do estado e acontece agora não só com atrações musicais, mas se ampliou com oficinas, debates, seminários, palestras, ações formativas.

O Maranhão na Tela, capitaneado pela produtora Mavi Simão, é também projeto que tem destaque fora do Maranhão tal o número de convidados de outros estados que vem para dar capacitação, palestras, oficinas…

O Circo Tá na Rua, Eita Pequena Arteira, Festival Limonada, Festival Disasters, inciativas acadêmicas, entre outros, que reúnem a galera que está produzindo, mas não tem onde se apresentar, só comprova que produção cultural existe. O que falta para um público maior comparecer e valorizar a prata da casa é uma incógnita.

Talvez se as pessoas olhassem um pouco mais ao redor, ao invés de idolatrar somente artistas que estão na mídia, veriam que aqui mesmo, na nossa Ilha, perto da gente, tem gente que brilha, mas que só precisa de uma oportunidade para ganhar a sua admiração.

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Patricia Cunha Lago é jornalista formada pela Universidade Federal do Maranhão, com Pós-Graduação em Assessoria de Comunicação: Política, Setor Público e Organizações para Terceiro Setor (Faculdade São Luís/Estácio de Sá). Atua no jornalismo cultural há 18 anos e é repórter do caderno Ímpar do Jornal O Imparcial desde 2011. Integra a Comissão de Análise de  Projetos Culturais Incentivados  (CAPCI- Lei de Incentivo Estadual).  _____________________________________________________________

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5 respostas para “Santo de casa faz milagre?”

  1. Bravo! Algo a ser discutido e repensado, com a ajuda do POder Público, das escolas (formadoras das novas gerações) e de cada um de nós, que devemos valorizar nossa identidade cultural, para crescermos como sociedade!

  2. Parabéns, Patrícia. Boa observação. É preciso que o público local comece a olhar com mais simpatia a cultura local. Conheço muita gente que admite não gostar de música maranhense. Mas conheço pouca gente que realmente conhece a música maranhense, especialmente a atual. Ou seja, não gostam do que não conhecem…

  3. Excelente iniciativa do Site BH!! Parabéns pelo texto e por explorar essa temática que muitas vezes é tão pouco notada, apesar da extrema beleza e desenvoltura dos nossos artistas locais (“mea culpa” total!!). Temos muitos diamantes aqui que só precisam de um foco de luz para reluzirem mesmo. ??????

  4. Mais um texto que vale muito a reflexão!
    É preciso que as pessoas entendam que só a cultura nos livra do tédio cotidiano e nada melhor do que valorizar e investir em talentos locais.

  5. Verdade!! Público local não dão valor em artistas da Terra. Por isso , alguns vão tentar sorte em outros Estados e são reconhecidos.

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