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POR Manoel Veloso

Paternidade Precoce, ou o “porquê prefiro a minha infância”

Colunistas / 15.10.15

Sábado à tarde e resolvi me aventurar pelos cinemas com meus rebentos. Não são bem rebentos, mas o irmão mais velho tem papel de pai. É o exercício da paternidade em doses homeopáticas. E, como pai ausente, mas que tenta compensar a distância causada pelos tortuosos caminhos da vida, levei-os ao cinema. A gosto do mais novo.

Não nos foram dadas muitas opções. No caso, não me foi dado muito poder de escolha. O que os pais não fazem por seus filhos… Por mais que eu quisesse assistir um suspense ou terror, topei assistir Carrossel – O Filme.

O mais novo estava ansioso. Umas cenas da propaganda envolviam risadas, algumas flatulências e traquinagens de infância, que foram contatas e recontadas por ele até o início da sessão. O rebento do meio estava indiferente. Afinal, qual adolescente não agiria assim: queria estar em qualquer lugar, menos ali. Incompreendido, suas angústias com o mundo e as espinhas insistentes mereciam estar encarando qualquer coisa, menos o drama dos “guris do recreio”. Paciência.

Enfim, o filme passou. O mais novo continuou rindo de algumas cenas. O do meio permaneceu indiferente, mas sempre reclamando de tudo e de todos. E, em mim, ficaram as inquietações. Pai preocupado que sou, não entendia como as coisas aconteceram daquela forma.

O drama infantil deixou de ser realmente infantil. Queimou etapas. Em meio às atividades do acampamento de férias e o vilão atrapalhado, o drama que se desenvolveu foi adulto. Um namoro aniversariante em crise por um mal entendido. Preocupações com ser percebido pelo crush, aparência e roupas. A simplicidade dos filmes infantis, agora, tinha traços adultos. No comportamento. Nas falas. Nas preocupações. Na maquiagem.

Aquele gostar no filme “Meu primeiro amor” desapareceu. As crianças falavam em relacionamentos, produziam-se, imitavam comportamentos mais maduros. A ingenuidade do primeiro beijo deu espaço para uma cena romântica em um barco improvisado de comemoração de aniversário de namoro. Sabe-se lá se era o primeiro ou segundo ano. Quiçá o terceiro.

Incomodado pelas reflexões do filme, perguntei aos filhotes sobre como andava a escola, comparando ficção e realidade. Não tive respostas muito diferentes do filme. Ao contrário: descobri que, aos 15 anos, ser descolado é ter carro próprio e algumas multas em nome dos pais. É passar duas horas por dia na academia para exibir os músculos definidos na primeira oportunidade possível – e isso inclui fila da cantina, bebedouro e até biblioteca. É manter no bolso uma inseparável carteira de cigarros. Fora os celulares de última linha, uma GoPro e combinações dos blogs de moda. Descobri, por fim, que não precisa ter 15 anos para fazer tudo isso: uma trupe de alunos de 12 anos já compete com a turminha mais velha para ver quem consegue fazer tudo isso primeiro.

Aquilo realmente me incomodou. Porque eu não quero que meus filhos não tenham as experiências que eu tive. Não quero que eles fiquem reféns da vida adulta, chata e quadrada, ainda na época em que relacionamento e dress code é “conversa da mesa dos adultos”. Lembro bem de perguntar para os meus pais o porquê de eles não brincarem mais de pega-pega. Eles responderam que os adultos se divertiam assim, conversando entre si. E como resposta eu disse que, quando crescesse, eu e meus amigos não deixaríamos que isso acontecesse, porque correr era muito mais divertido que ficar sentado.

Hoje, infelizmente, não brincamos de correr quando nos encontramos. Não sempre. Mas lembramos dos anos em que só corríamos. Dos anos em que brigávamos na fila da “lembrancinha” para pegar primeiro o saco de bombons. Dos anos em que, nos recreios, alugávamos o som da escola para dançar no pátio. Dos anos em que o maior dos nossos problemas era não encontrar a figurinha que faltava para completar um álbum. E ostentação era ter a coleção de tazos completa. Ou um disck man à bateria.

Entre o saudosismo da minha infância e a angústia de criar meus filhos, pensei nos meus pais, que também passam por esse mesmo processo. O ciclo apenas se repete. E, antes da hora, já sofro pelos filhos que nem são meus, mas que temo por nunca viverem o que eu vivi.

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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