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POR Manoel Veloso

Dias

Colunistas / 08.10.15

Não é que não esteja tudo bem. Só que está tudo assim, meio mais ou menos. Nem tanto lá, nem muito próximo de cá. Não são sorrisos amarelos, tampouco gargalhadas. É um pouco de tudo que resulta em nada, sabe? Tem dias em que o mundo despenca em minhas costas e sinto as dores da existência – daquelas dores angustiadas de porquês sem respostas. E também há dias como esse, que é apenas um dia. Nem acre, nem doce. Apenas mais um dia.

Não me leve a mal se estou calado demais. Tenho muito a compartilhar, sim. Vivi tanto quanto você. Talvez meu desamor tenha sido parecido com o seu; também posso ter enfrentado o mesmo dilema no trabalho; quantas vezes também deixei o arroz queimar e pedi um delivery para substituir o jantar. Não concordo plenamente com o que você diz, mas hoje eu não quero contra-argumentar. É que escutar está sendo melhor do que falar, agora. Não é indiferença consigo, jamais! É só um descompasso entre a língua e a alma: parece que andam com as relações estremecidas e estão preferindo ficar distantes.

E dessa relação conturbada me resulta este estado de espírito. Essa coisa indefinida em que não sei ao certo, mas, sei lá, pode ser. Nem satisfeito, nem insatisfeito. Mediano. Copo meio cheio, copo meio vazio. Não, não é início de depressão ou qualquer outra doença (aqui você há de convir que doente está aquele que acredita piamente em que tudo é, necessariamente, uma doença). Só estou – preferencialmente – na minha. Tangencio a sua, mas, hoje, eu quero continuar aqui dentro de mim, sem discursos nem murmurinhos. Quero meu silêncio. Quero o vai e vem do mar que nasce e deságua aqui no peito (ou aqui na cabeça, ou aqui no dedinho do pé).

Porque, você sabe: tem dias que esse mar não está pra peixe. Dias meio confusos, meio racionais demais. Demais, de menos. Posso estar completamente comovido consigo, mas as expressões se perderam no caminho antes de chegar aos olhos. Perderam-se nas entranhas, na tentativa de conectar-me ao restante do corpo e gritar “reaja!”, mas, simplesmente, não correspondo. O marasmo do “talvez” é maior. E talvez eu sinta; talvez eu expresse; talvez eu fale; talvez eu chore; talvez eu sorria; talvez eu abrace; talvez eu xingue; talvez. E da incerteza do sim ou do não, mais uma vez, abstenho. E, calado, vejo as horas passarem, os ventos cruzarem-se e o ir e vir de outrem.

Nessa encruzilhada das horas, ventos e pessoas, abro um livro. Folheio. Leio horas, mas as palavras não ficam. Passam despercebidas por minha consciência. Estou lendo, sim. Mas prefiro não compreender. A cabeça não está cheia. Pelo contrário: insiste em padecer de meu silêncio. Oca. Uma sensação tanto quanto engraçada porque convivo com uma mente que fala aos berros, sensitiva demais, explosiva demais, compulsiva demais. Ansiosa. Daquelas que por muito pouco vê-se em meio ao Vesúvio.

Mas hoje? Não. Não sei. Sei lá, talvez, pode ser.

(Silêncio)

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Manoel Veloso, mas ainda atrás de um plural – são muitas vidas dentro de um só. Dizem ter 21, mas pode ser 32 ou 60. Estudante de Direito da UFRJ, mas gosta mesmo é de Literatura. Sonha em estrelar um “Velozes e Furiosos”. Ousado, mas não o suficiente para declarar-se escritor.

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